Desenho “Isquesito” por Leonel Pintor
PÁRIAS
por
Happuol Osogaarf
UMA FILOSOFIA
“Mas,…
Várias…
Filosofia…
Hoje ou amanhã?
Talvez em tempo nenhum…
Talvez nunca…
Talvez sempre…
Talvez, Talvez, Talvez…
Talvez…
Talvez um dia as flores riam no Inverno;
“Talvez” as árvores frutiferem no Outono,
e a neve caia no Verão,
e o Sol abrase no Natal.
Que bonito!
Que benção dos homens!
Que beleza!,
e que eu talvez, talvez…
tal vez será uma efeméride…
Talvez o Mundo vá ao futebol,
e venha ter comigo
com o vento a esfriar-me as orelhas,
numa rua escura de nevoeiro,
e se sinta feliz a quatro dimensões…
Dimensiona em mim o terno pavor,
e acalma os animais do tempo;…
Força meu dia, afora os momentos,…
Força meu vento…”
§§§
Um bafo de heresia lançado ao vento,
boiando no fofo colchão atmosférico,
fala às estradas e aos rios.
Discute com rudes pedregulhos,
e comunga todos os Domingos.
-Sê bom! – e a Natureza ordena.
E não há faca que corte
sem ser afiada depois da matança;
Se o bafo protesta logo se amansa.
§§§
Sinto-me ficar louco
Sinto-me loucamente ter nascido louco….
É uma loucura!
E a única loucura que possuo,
é amar-te loucamente…
…até que a loucura ponha fim à minha
loucura permanente…
§§§
Há uma morte em cada pensador
e cada pensador é uma morgue.
A Arte é diversificada
e é bem vinda à maneira que o Sol brilha,
e o poeta sofre.
O tempo passa
e a vida foge,
os planos morrem
e os dias concretizam-se.
A apreciação depende inúmeras vezes
e abana a cada sopro,
pende do alto das covas
e cai nas mais fofas nuvens.
Ah, felicidade inexorável!
Não há alegria que alcance a tristeza,
e não há loucura que ultrapasse o sofrimento…
Não há reticências,
há um adiamento que corre para lá das estrelas
e se encolhe na estrada do Cemitério.
Não há música que acelere o relógio
e não há relógio que não faça música.
Cada um à sua maneira…
Há maneiras para todos
e não há tudo para ninguém.
Todos têm infinitos
e Ninguém tem nada.
O Ser é uma figura,
cada figura é um caderno,
e cada acção um romance.
Um romance ninguém o lê…
Todos lêem uma fantasia
e a fantasia não é uma banalidade.
Fantasiar é fazer circo,
cada circo são vidas,
e cada vida é um circo.
Beber vinho é natural,
natural é beber água,
água é a vida,
e a vida é um banho de banheira.
Ah, pois é!
Fazer puzzles é divertido,
jogar é um risco,
um risco é uma recta,
uma recta corre para o infinito
e nunca volta para trás.
Vai de encontro aos astros
e nada se desfaz,
tudo permanece intacto
e nada se conserva.
E o poeta sofre!
Cada corrida é uma parada,
e a chuva cai.
E a única reticência
é pensar nas gotas de água
que se unem como uma sociedade
tornando-se num oceano geado de brasa feito!
E a estrada roda,
e os carros permanecem a olhar.
As pessoas caminham embriagadas,
e a estrada enlouquece
e as pessoas sentem
e fingem não dar conta de nada.
E os poetas sofrem!
E se assim não for,
que diferença faz?
Três mais três são dois,
e seis só é um,
e todos são um milhão,
e mais serão muitos milhões,
e todos juntos só são um,
e um é um,
e será sempre um,
e um são todos.
E o homem não entende,
e o homem vive,
e o poeta sofre!
E eu não entendo!
E depois?
E depois não fica nada,
e fica tudo igual,
e são tantas coisas,
e não é nada,
e não é tudo.
E sabe lá quem quanto é?
E sabe lá quem o que é?
E sabe lá quem sabe o que sabe?
E todos sabem nada
e nada sabe tudo…
tudo é uma ilusão,
uma ilusão é ficar parado,
ficar parado é concentração.
então concentrado,
qual a satisfação?
Parar um bocado,
ficar aterrado,
livre do Mundo.
Grande ilusão…
E a maior ilusão é não parar!
Há sempre uma paragem,
nem sempre um recomeço.
Só recomeça quem alguma vez começou!
E quem começou?
Quem nunca foi nada.
Todos fomos alguma coisa,
e quem de nós já começou?
Quem de nós quer começar?
Que somos? Que seremos? ou… Que fomos?
Que sabemos?
Que pensamos?
Que dizemos?
Nem tudo, nem nada, nem alguma coisa…
Todos parámos,
e não cumprimos o ser,
e já estamos fartos de o ser…
Não há regras para ninguém,
e ninguém é uma regra.
E Ninguém é uma regra!
E alguém será uma regra?
E Ninguém será uma regra?
Porventura será alguém…
E o Sol brilha,
e as nuvens passam,
e o Céu é azul e cinzento e encoberto,
e a água molha,
e o calor sente-se,
e o frio arrepia,
e o barulho sente-se,
e o silêncio ouve-se,
e a terra move-se,
e a distância encurta-se e alonga-se,
e no Mundo há tantas coisas,
e às vezes não há nada…
E será tudo ilusão minha?
Será tudo ilusão minha?
Será tudo ilusão dos outros também?
Será tudo ilusão nossa?
E que tenho eu a ver com os outros?
E que somos… todos separados? E todos juntos?
E que amo eu além do paraíso?
Quando lá estou não penso…
E os poetas sofrem! E amam! E criticam! E amam!
§§§
VISÕES
por
Zombie
SOU…
Forte como um touro raivoso me transforma…
Garras de ave de rapina me dá…
Loucura e precisão de ourives me fornece…
Os meus olhos
perscrutam ávidamente a paisagem nocturna,
que se desenrola por detrás das sombras fugidias
do comboio atrasado…
Os meus olhos
olham por entre os vidros das janelas
imaginam um enorme espelho – opaco
a figura esbelta da minha presença…
O beijo de uma mulher –
segurança… presença…
superioridade não provocada…
As garras actuam… provocando
Da minha expressão o espelho arranca a expressão
assassina de um cão que ladra,
mas que não morde
(Sim! Os cães não pretendem morder, apenas assustar)
Como eu…
Belo. Narciso superior.
Aquele que gosta
de observar,
de comandar as tropas,
os soldados para os infindáveis assaltos…
Traidor de todos.
Incendiário de paixões já não mais contidas.
Traidor de mim próprio.
Feliz – ao desconcertar quem não sabe
a razão de não querer ser considerado amigo
Sou
livre… de todos
Estou
livre… de tudo
Não me importunam mais os espíritos malignos
que me povoam as trombas
A ESLAVA COMPAIXÃO
Acordar longínquo e tardio do ser
Passar intermináveis tardes na pastelaria
Sonhar esmaecidamente algo que não existe,
sonhar num frémito a realidade
Esquecer enternecidamente compromissos inadiáveis
Esperar alguém que sabemos que não virá,
mas que não queremos que chegue
A permanência de nós em nós próprios
A pureza de estar escrevendo
sobre um livro insustentável, não o abrir
por humildade e um pouco de preguiça
A sensação de sermos realmente nós,
de termos direito a abusar da nossa paciência
Ah!, contemplar as pessoas que me observam
como se fosse um esquizofrénico
A vida, a eterna metáfora de quem sabe
que algo sempre acontece quando o menos
desejamos,…
quando o menos
esperamos,… (e SURPRESOS)
Chove neste momento, estou preso
Que bom!, a melancolia radiosa.
CAPTOMANTE 2 (PARTE I)
Convoluindo a génese humana
com o doce sabor do som de uma guitarra
Reparamos na existência
de uma ténue esperança
de que algo mudará.
Mas, no entanto
a imperceptível volúpia
nos sussurra que nos sentimos sós.
Este é talvez o maior dilema da Existência.
TRÊS EM UM
Uma sensação
uma cadeira um poster uma cama um quadro
Frio como a noite ele é
Uma vaguear um delírio
um tecto uma caneta um papel
Terno como os lençóis ele gostaria de ser
Um objecto perdido no meio da multidão
uma negação uma escrita uma divagação
Só como as sombras ele se sente
Uma sombra uma luz uma melodia
um objecto um tema um lema uma conversa
Triste como a noite ele está
Um esvoaçar de cigarros
uma vontade um adormecer um poema
(Fraco como o seu corpo ele permanece)
Uma sensação de alívio… de triste beleza
SCUASCRAAMO
Senta-te em cima de um penhasco
e pensa
Convolui-te com a tua mente
Ultrapassa a fronteira
Atira-te
e recorda
Sente os teus conhecidos
Chorando por ti rezando pela tua alma
Recorda o teu passado
pensa nas boas e más acções
Admira os teus momentos de felicidade
e chora
A sorte não te premiou como devia
Mas nunca te esqueças
Os mortos também dançam
ZINUM EXTRA-PEDAFFILIS
por
Bórgia Ginz
CANTO A MALDOROR
É noite.
Nada segue o passo inseguro
que esboças suavemente no ladrilho poeirento
da tua alma.
Aconchegas a súplica errante da morte.
Orquestras o animal latente
que em ti geme e vocifera:
“Hei, Maldoror! Levas aí a tua dor?”
Caminhas.
Em sangue te violas e contrafazes.
Erras por caminhos escuros
e vais de encontro à parede embrutecida,
até que o teu corpo se desfaça
em silvos agudos de sofrimento.
Mas tu és um monstro!
És capado e congruente de for a para dentro!
Mais um passo.
Mais uma penúria…
“Hei, Maldoror! Levas aí a tua dor?”
Essa dor que refrescas constantemente e
acolhes de braços abertos.
Teimoso!
Segues a tua sombra
de noite e escuridão feita,
que depois do ocaso tudo se amansa
e o temporal é bonança.
Pássaros carnívoros rodopiam à tua volta.
“Hei, Maldoror! Levas aí a tua dor?”
Em frente! que atrás fica o mistério!
Em frente! que atrás fica a volúpia!
Em frente! que para trás nada fica!
Alcanças o muro de mármore que perseguias.
Sentes-lo com o teu nariz
enregelado e amarelecido.
E cantas!
Sempre em frente! Sempre em frente!
“Hei, Maldoror! Levas aí a tua dor?”
Mas como és pedante!
Que figura triste, meu Deus!
“Maldoror! Hei, tu aí! Levas a tua dor?
Se não dou-te um tiro entre os olhos!”
Não me ligas.
A nada ligas.
Flores inacabadas prendem-te os movimentos.
Esforças-te por tentar mais
um passo.
Em vão…
E cantas copiosamente uma valsa funerária,
de trombetas cheia,
e cravos velhos e murchos entupida.
Ála! Para a frente!
O passeio acaba,
acaba o caminho.
Agora é só terra e montes de carvão
fumegante.
“Hei, Maldoror! Levas aí a tua dor?”
Pimba!
Um toro esmaga-te o crânio.
O lenhador louco afasta-se
contorcendo-se de riso.
Foste mais um paspalho apanhado na sua armadilha!
“Hei, Maldoror! Levas aí a tua dor?”
Sentes a vida em sangue.
Sentes a vida numa mortalha negra
prematuramente enterrada.
Já não vais a lado nenhum.
Que o mundo fechou-se para ti.
Acaba-se o mundo quando te acabas,
e a beata que fumas é velha
como a morte.
“Hei, Maldoror! Levas aí a tua dor?”
“Não, meu querido pai! Eu já não sinto dor!
Agora, sinto-me apenas capaz de provocar a dor!”
NEORUM
Um olhar que se encobre
em mil subterfúgios de semiescuridade.
Nada que lhe fale de ardor
e penumbra do sentir que já foi lei.
É um resto de carne que se teme
no toque que é subtil,
porque subtil se forma em candeias azuis
de perversão.
É uma mão que se atemoriza
pela existência cruel de um torpor inalcansável.
Porque o medo extravia-se.
Porque… sente-se medo e ódio que
se fundem,
em avaliação subtil de um foco de luz que é negra
como a noite.
De um eclipse carnal se estiola.
De medo coabita um ser que não é
perfectorial de sede e fome.
E nada alcança o medo!
Tudo se funde em zonas de metazonas,
como uma flor que nasceu sem saber.
E o latir cresce por dentro de
um cérebro em plena extinção.
Extinção de um querer mórbido que já foi
mórbido e que agora não é mórbido,
não é nada.
A faca que se afia está pronta
para o corte final que não é fatal.
Dá-nos e transpõe-nos a passagem métrica
daquilo que nada nos é perfectorial e mudo.
Mudo… tal como surdo…
Apenas o sentido não se transfigura em mim.
Claro que chove e não estou molhado.
Mais uma traição da alma.
MORTUS
Eis que a morte chega pela madrugada
acompanhada ostensivamente por seus mil
servis lacaios.
Entoam-se
cantos de louvor eterno
e uma corneta pingente e chorosa
vai desfilando em frente
a meus incrédulos olhos toda uma
imensidão de horrores e coisas tétricas que tais.
Não encontro em mim
forças necessárias
para me manter de pé e quedo-me tristemente
no chão sangrento que suavemente me acolhe.
Dois guerreiros de serventia
cortam-me placidamente
as penosas asas que exibo a
encimar os meus débeis ombros,
e brutalmente arrancam a auréola de metal que levita
sobre a. minha cabeça.
Sinto-me penetrar pela morte!
O anjo caído que sou eu,
em mármore pálida se transforma!
Queixo-me da dor atroz que me afogueia a face
a desvairo-me para além.
É assim a morte!
O fim do anjo que nos dá vida!
INANIA VERBA
Esforço-me em voltas suspensas
pelo ar intenso da manhã
por encontrar
as mãos tensas
e frias
e lívidas
e suadas
do teu cérebro imundo que não
é mais do que o fugitivo esgar
que me persegue
noite fora
até não mais me poder
sentar na cama fria
que me espera sossegadamente no aconchego
da minha tumba
repleta de flores garridas milagrosamente
pelo Sol dourado
que inunda
este belo antro de pecado onde decidi
por fim
ancorar a minha alma já cansada
de tanto escrever nestas
folhas
frias
e cruas
que tão nada me dizem
ao de leve ciciando
e gemendo estupidamente de prazer.
BRANCO
Há noites de insónia branca
reflectidas no espelho ondulado do quarto,
pequenas luzes que se escoam
no meio de sonos fugazes e esquecidos.
Há um corpo que se mexe na cama
solitária onde houve adeus matinal.
E na sede reside o encanto…
Pequenas barbas perdem-se nos lençóis.
Sol, luz, amor, alheamento…
As paredes
brancas de um enclausoramento subtil e agradável.
Eu…
Cabelo vermelho,
cabelo verde.
Há castelos que são fortes, os nossos!
Uma viagem.
Uma doideira subtil.
Dentes a quererem sono,
em camas de lençóis cheios de confusão,
de amanheceres distorcidos,
brancos,
da tua pele inundados e…
mudos.
Poeira cósmica sobre mim…
Hoje,
o mundo apresenta-se-me branco,
um branco salpicado de muito negro,
na intensa luminosidade do
lusco-fusco inebriante.
A calma quebra-se…
Ruído,
confusão,
distorção.
Há música no ar. Dancemos livremente…
Há noites de insónia branca
reflectidas no espelho ondulado do quarto.
CISNE
Dorme, dorme,
pequena sereia azul em mar turvo de lágrimas.
Segues o teu sonho
com a palidez da tua face adormecida.
Os teus dedos esguios e suaves
calculam trajectórias recambolescas nos
meus caracóis pretos de carvão.
E acordas de mansinho
para me tocares nos lábios
com o teu suave embalo de paz.
Dorme, dorme,
pequena sereia azul que és rainha em harém de cristal.
Se eu fosse peixe
tu serias Deusa.
Se eu fosse mar
tu serias gotícula a contraluz.
Mas eu sou homem!
Mas eu sou carne!
E tu és simplesmente… recordação amena.
Novas de outros mundos
trazem-me aromas de ti,
em êxtase fundidos numa só alma
que adivinha o ocaso de mais um Sol nascente.
E a noite encaminha a solidão para
a rocha mais dura.
Dorme, pequena sereia, dorme.
Eu estou aqui.
Eu durmo a teu lado.
BRONSSI
Lon Min of tuly
Ie donc par beltran
Ka ess Kas et june
Ik tong pum pum
Sor per la fool des viles
Ik tong pum pum lokes
Dir fias el transksection
Jor lion filles et Ka ess Kas
Rimbaud loked in furt
Gonmeyer flip flop transisteur
Duct ca los tier
Ta beltran et Ka ess Kas
MALDITA LITERATURA
por
Zombie
Sentado estava num café esperando que as horas passassem
rapidamente, objectivo que quanto mais nele pensava mais
fustrantemente verificava ser impossível alcançar; conversava com alguns
conhecidos acerca da meteorologia e de quais seriam as previsões para os
próximos dias… enfim, banalidades!
De repente algo se alterou, uma luz ao meu cérebro aportou, alguém
no café entrou, trajando um simples cartaz onde se anunciava a evocação
da vida e obra de um escritor-poeta já desaparecido.
“E porque não?” Pensei. Era tão grande a melancolia da indiferença
para com os que me rodeavam que quase personifiquei as folhas secas da
dormideira vermelha. “É isso, vou conhecer algo desse artista.”
A sua vida foi exposta, lidos foram alguns excertos da sua obra.
Como pessoa tinha dentro de si dois egos. Um, real que o levava a
pensamentos melancólicos e destrutivos, vivendo sempre torturado pela
alma, mendigando pelas ruas da amargura, pensando e lendo muito,
procurando algo de supremo (a Beleza, a Perfeição, a Contemplação),
algo que o fizesse alcançar o seu ego ideal. Mas… era incoerente e a todo
o momento se contradizia (talvez?). Andava da ré para a proa como um
marinheiro desprotegido numa noite de temporal. às vezes, possuindo o
Absoluto sentia não ser aquele o seu lugar. Então, voltava a cair na
desgraça, na sucessão de sentimentos e sensações confusas, de onde só
retirava algum prazer se entretido a passá-los ao papel.
Encerrada a cerimónia, saí e vagueei. Escusado será dizer, todas
estas revelações me impressionaram (sim, é verdade), marcaram-me
muito. O que mais me espantou foi a semelhança, ainda que ligeira, entre
aquela vida e a minha.
Deixei-me então cair numa intensa modorra. Sem dar por ela, tinhame
instalado na tasca mais reles que por aqueles sítios havia.
Instintivamente, puxei de um cigarro e um bagaço ia já a caminho do meu
fígado. O quanto bebi não sei, apenas recordo a imensidão de corpos
dispersos sobre o balcão, o empregado implorando. “Ó chefe! Não beba
mais! Por favor! Era suposto eu estar de folga! Ande lá, ande lá! Quanto
mais entorna, mais eu trabalho!!” Obviamente, um empregado sem
espírito comercial.
Se bebi para esquecer tudo, todas aquelas similaridades, não o posso
afirmar. Na realidade, comecei a imaginar ser o hospedeiro de duas
personalidades – eu… e o tal poeta.
Com o passar do tempo a sua forma tornou-se mais nítida, assumiuse
como sendo meu opositor psíquico. Devido à embriaguez descuidouse,
abrindo-se uma janela no meu cérebro que me permitiu imiscuir nos
seus pensamentos, no seu modo de estar e de sentir. Verifiquei
abstracção, mesmo introspecção. Reparei na abundância de olhares
virtuais quantificando o espaço em multivariadas formas ou símbolos –
creio ser possível exprimir o seu pensamento em pauta. Ouvi
pressentimentos indefinidos, meditava “As pessoas mudam mas o
contexto onde estão inseridos é imutável”. Sentia-se farto, inadaptado e
desinteressado, bem como desintegrado. Criara-se uma sensaboria que
urgia combater não sabendo como, não conhecia a mais correcta opção.
Pensava eu “sendo ele um egocentrista haverá apenas duas possíveis
soluções: ou continuava fiel a si próprio desligando-se do mundo em
redor e viveria sem competição procurando o gozo pessoal absoluto, ou
então desapareceria simplesmente desta encarnação.” No fundo, creio ser
ele um sórdido romântico, um idealista aspirando a algo e desejando por
isso não se concretizar.
Sentia-me exausto, os olhos ardiam-me. Adorava esta sensação.
Fazia-me sentir abandonado a um local de onde não conseguiria sai, não
por impedimento mental mas sim por uma espécie de mazela física. No
entanto estava a gostar de ali estar.
À minha volta vegetavam bêbados como eu. Comunicava com eles
de um modo muito pessoal, aveludando invariavelmente processos,
encobrindo a voz. (Seria medo? Talvez.) Alguém se tinha incomodado,
porquê não sei, sentia-me impelido a pedir desculpas…, mas eis que o
escritor se impõe: “Não!! Tu tens razão, que não te fiquem remorsos!
Vamos, vamos embora deste antro!!” Espantado, assim fui, cambaleando
e adormecendo mal chagado a casa.
Na ressaca do dia seguinte acordei recordando tudo isto. Talvez
tivesse sido um sonho. Lembrei-me dos versos do poeta: “Eu não sou eu
nem sou o outro,/ Sou qualquer coisa de intermédio:/ pilar da ponte de
tédio/ que vai de mim para o outro.” Lembrei-me das podres mentes
abjectas que me rodeavam e furioso exclamei: “Maldita literatura!”
Versos do poeta Mário de Sá-Carneiro.
TRÊS POEMAS DE AMOR
por
Juca Pimentel
APOTEOSIS MURALIS
É febril
a sede de existência,
e o desejo de nojo e vis pensamentos.
Sangrentos ocasos de miséria e luxo!
Anseio
por mortes perenes e lívidas de desespero,
crónicos olhares de luxúria ao virar
de cada esquina.
Desfaço-me lentamente em pranto
e desvairo-me para lá do crepúsculo,
orquestrando em mim
o animal latente que geme e grita:
“Amo-te! Vem morrer a meus braços!”
Não mais que uma carícia!
Não mais que um olhar!
E depois…
a noite, horrível… horrivelmente bela!
E possuir-te-ia
com a voracidade de
miríades de ratos chiando, rangendo, roncando!
Despedeçaria
esse teu flácido corpo tão belo
em mil pedaços
de ódio e rancor pulverizados pelo tempo!
E então, Eu seria eterno!
E então, Eu seria aquele monstro que tanto
gozo me dá!!
ORLOG
À sombra de Deus,
eu te perpétuo em dócil volteio no ar…
Confundo-me estramboticamente
com paixão num eclipse crisálido de dor atroz.
E Invejo-me de Te ter!
Invejo-me de possuir esse
teu corpo
flácido e pecaminoso com que
torturas a minha alma!
Tenho gana de fugir para bem longe daqui!…
Para nunca mais te ver… e te ter!!!
Eu olho para Ti, e tenho medo, minha querida…
Eu vejo-Te despida
num sonho purpúreo e diabólico,
e sinto nojo… e sinto vontade de vomitar,
meu amor….
SUICÍDIO MENTAL
DE UM PORCO RANHOSO
Ai monk quin pá!
E tu és ranho que me sai do nariz!
Ai tun king for plá!
E tu és um pénis dolorento em
Noite de Verão!
O frias mal tu nísias!
E tu és o cheiro nauseabundo de
Um ânus mal lavado!
Fork fork et ka ess kas!
Nada mais te quero “baby”,
O sonho desfez-se em merda!
CRUZAMENTOS
O BAILE SÔFREGO
Paris, Berlim, Casablanca,
casa branca e o cão.
Um sonho
que se esfuma,
um apocalipse
que se dispersa interiormente e fora.
A mulher de gorro verde
levantou-se e juntou-se ao homem
e cabedal preto.
Havendo sempre aquele frio!
Nada…
pedra preciosa que se perde no vício.
Absorve-se esfomeadamente
nicotina nas mesas distantes…
a ao longe a minha silhueta
reflecte-se
várias vezes.
Cor… anil…
suave lágrima que seca a fonte interior
de Élan.
Ela morre
asfixiada pelo seu peso sagrado.
Entra um velho…
Urna que segue em frente.
Dentro dela…
… o medo!
Chega de Festa!, diz ele.
E pede café com leite.
Lá fora,
no infinito,
milhares de corpos contorcem-se destrambelhadamente
andando.
Escória…
Lixo…
Verme…
Luxo que penaliza
e transcende em for a dele.
É hora… é hora de acabar e de partir,
de nos desvanecermos no papel amarrotado de guardanapo.
RIAS DE OSTRAS DESENGONÇADAS
Algures
num espaço longínquo
existia uma aventura em isolação
e fúria.
Teria se calhar
algumas hipóteses de afirmação.
Talvez…
Por ora sinto-me apenas existência,
não símbolo,
não tela,
apenas sinto ser.
Mas seria uma minha ignorância própria
imaginar o desenlace
realmente enganado com uma mordaça…
For a para a sensação do advir,
esventre-se a questiúncula do pensar pensar,
que terra se esvai em tropel sobre nós,
que luz nos encandeia em fogo e paixão!
Há pouco
um carro ia tendo a mesma sensação que eu,
uma sensação como desequilíbrio psíquico!!!
Eu sinto-me!… Eu sinto-me!…
Façam Festa!
…porque eu sinto-me!!!
Água Fria
-Projecto in verbis
por J.P.
A mente é por natureza um poço de perversão. A supressão das mais elementares ilusões, que nos vibram golpes de encanto de vigor esplendoroso, significa a estupidificação de tudo o que nos faz ser e estar. Antes estar morto que mal vivo. Os cadáveres não procriam deformações. E a maior enfermidade dos grous da modernidade é serem eles tão somente a sua própria negação. Uma imensidão de castrados que se arrasta pela civilização e geme de luxúria ao virar da esquina, com as frontes inflamadas na observação de um rabo bamboleante de mulher, todos a conspirarem um mau cheiro de nojo sobreaquecido, tudo a ver-se através dos olhos estúpidos de aves de rapina que voam à altura dos meus pés, tudo é extremamente porco! E deixem os cãezinhos em paz...
As pichas douradas dos jovens aquecidos ao rubro! Magia! Com as vestes incendiadas das mulheres que antes de o serem o desejariam ser! Com os cerebelos todos doidos no acolhimento de uma arte que apodrece entre os seus dedos! Com toda a miséria de todo o mundo amontoada por detrás da porta que enfeitam com corações e caras dos amores dos outros! Com a luxúria que aprendem nos filmes à Hollywood a fazerem-lhes cócegas nos rabos desproporcionais à inteligência, mas proporcionais à estupidez! Enormes! Eu digo: majestosamente enormes! Os rabos...
A majestade do mundo é precisamente tudo aquilo que felizmente o homem não alcança. Não fosse isso e os tomates enlatados dos homens que fornicam a arte há muito que teriam saído das suas latas velhas e nauseabundas para espalharem a sua letargia barata pelas latrinas municipais.
Um desespero fundamental.
Morram com a arte!
Para um golpe de estado
Temos o sonho entalado no meio dos nossos dentes amarelecidos pelo tempo. Temos toda a nossa intelectualidade metafísica dispersada na imensa miserabilidade do nosso corpo, e com isso sofremos todas as atrocidades que nos fazem arredar passo de toda a “outra” humanidade.
O exagero das formas passa por ser hoje em dia uma verdadeira instituição comportamental, toda de beleza feita nas faces frescas dos jovens. Mas, até quando a juventude?, sendo que ela não é um posto vitalício? Não há explicação para a “criancice”. A não ser que a palavra mais correcta seja “sacanice” . O estado jovem é antes de mais uma palavra, um sussurro de individualidade, esquecidas que estão para sempre noções como o colectivo, a nação, o patriotismo, a camaradagem, acompanhadas pela crescente debilitação de teorias políticas como o comunismo. Pois que a própria política é olhada de soslaio e alvo da troça generalizada. (As pessoas que poderiam dar algum contributo futuro à política, são os que agora mesmo mais troça fazem da mesma. Só os oportunistas e os vagabundos mentais de agora serão os políticos do futuro. Prevejo uma vaga cada vez maior de corrupção e branqueamento políticos.) Porque a paixão, para a juventude, é uma palavra que tem a ver com mulheres, não vendo os “jovens” de agora nenhuma outra asserção para esta tão bela palavra. Paixão...
O cérebro, ao contrário do que dizem por aí, já se vai tornando pequeno para tanto processamento de informação. É óbvio que se revelam já por todo o lado certos tipos de dislexias próprias de fenómenos de impreparação mental, e até física, em relação a
certas realidades mais “modernas”. E cada vez mais as drogas têm uma componente psíquica, inerente ao subconsciente, a raiar o mortal, o inconcebível físicamente. “A droga que mata somos nós.”(Juca Pimentel) Encontro-me muito céptico em relação a qualquer teoria que aponte para um radical desenvolvimento psíquico/mental do ser humano, a exemplo do que se deu desde os nossos antepassados queridíssimos, os primatas. Não concebo que o cérebro humano tenha bases para um crescimento intelectual grandioso. Porque o homem, e aqui volto aos jovens, não têm motivações exteriores, no mundo circundante que consideram a sua realidade, motivações motoras que necessitem de um desenvolvimento em grau elevado do cérebro. Os jovens amealham kilobytes de informação por dia, a um ritmo muito maior do que o do processamento e eliminação do lixo, (há informação que um jovem de dez anos hoje, nunca processará!), numa atitude muito passiva, ou em linguagem mais in, numa atitude muito artística. Surge sim, e apenas, a necessidade de aumento da capacidade de reter informação, como se numa casa houvesse apenas a necessidade de ter armários e gavetas...
O cérebro humano desenvolveu-se através da experiência, através das motivações motoras, que desencadearam um processo de milénios. Foi, por exemplo, a necessidade de caçar melhor, mais rentavelmente, etc., que criou condições para o “crescimento” cerebral. Hoje em dia, a passividade tomou conta do dia-a-dia da juventude, aquela mesma juventude que se auto rotula de irrequieta e com febre no dia de Sábado à noite...
pelos meados de Maio de 1995
Bórgia Ginz
SONO
Entrei na morgue no dia mais feliz da minha infância. Os braços esticados, em forma de sono, impeliam-me majestosamente em direcção ao desconhecido por que eu tanto ansiava, em formas estridentes de loucura suave e pacífica. Encontrara pela primeira vez o verme longínquo e latente que me atormentara a consciência durante tantos anos, e a calma dos meus ossos assombrava a quietude do meu andar seguro pleno de convicção. Todas as dores em lençóis brancos sujos de mágoa, que eu visitara no meio do meu sono mais suave, desvaneciam-se agora sob o efeito de cada passo inclinado na escada sempre a subir do corredor que antecedia a porta alta e branca, de ferro lacado, pintalgada aqui e ali de manchas de ferrugem mais velhas do que eu. Os dedos hirtos e suplicantes, sonhando vozes de torturas carnais de odores intensos, faziam o prolongamento físico da minha pura e intensa vontade de me tornar crescente em direcção ao mais majestoso dos momentos por mim sonhados nas noites do meu sono quebrado. Eu via as lógicas capitais dos censos de perigo amortalhado, aqueles que eu criava e matava enquanto a língua atingia o ponto mais saliente da parede que normalmente se erguia à minha frente. Via os monstros alados que pernoitavam simplesmente no encantamento mais subtil de uma noite vibrantemente engrandecida ao extremo da minha dor. Com toda a volúpia das mulheres que gritavam e chamavam pelo meu nome a dançarem de encontro ao meu corpo que se ia transformando em libélula gigante do tamanho de doze igrejas. Do sino da torre mais alta era executada uma balalaica de tempos imemoriais que me feria os ouvidos mas não o
nariz, que é a parte mais preciosa do meu corpo celeste; em ondas azuis e vermelhas e verdes de conspiração que teimavam em não desaparecer e que eu criava por entre os meus dedos para me divertir. Via os corpos meio antes de serem aplainados pelo martelo de oiro fundido que surgia do ar numa elipse de contornos fantásticos e cruéis. E só a memória ficava plena de convicção e fúria, pois no assombro do sentir residia o sonho perdido de anos.
Assombrei-me de encontro à parede nua e fria. Os ruídos longínquos que chegavam até mim em ondas de som violento e esmagador diziam-me que me aventurara longe de mais. O meu sexo endiabrado empolgava-se em demasia. Como se todas as mulheres de todos os mundos possíveis se consolassem de encontro aos meus membros inferiores e os fizessem prostrar no meio do maior alarido. Os olhos, bem enfiados no pedaço de luz que se esgueirava pela abertura semi redonda que à minha frente se erguia, perscrutavam e ansiavam pelo mais pequeno movimento, aquele que retinisse na base da nuca as vagas rimbombantes do meu adeus embriagado de choro. Não havia dúvidas, era tempo de entrar.
Senti um arrepio maravilhoso quando a palma da minha mão encontrou o frio da maçaneta da cor do oiro. Não foi difícil rodar um pouco o pulso. De olhos fechados, antevendo o sublime momento que presenciaria, ergui uma perna e entrei.
(continua...)
Crónicas dos olhares das pessoas por cima dos carros
I
Na montanha do pó cresce um torso feminino suspenso no ar por um cordel que se enfia nas cavidades pouco profundas visíveis no chão. É uma imagem algo desfocada de um Imperador antigo que foi hermafrodita enquanto se sentava no alto de um pedestal marmóreo, aquele que suportou Vénus antes desta se deslocar e esborrachar a cabeça da criança que brincava suportando na mão esquerda um longo facho de prata cinzelado pelo artífice da corte. À sua volta movimentam-se as carpideiras nos seus longos panos negros, que, com as lágrimas caindo num recipiente esculpido no mais puro diamante, juntam o precioso líquido acre e corado com o qual mais tarde saciarão a sede do seu mestre, no meio dos grunhidos e gestos de imenso prazer deste. No meio do fumo surge uma mulher semi-oxigenada, com os braços cobertos por tatuagens negras e exóticas, levada em ombros por seis negros de músculos brilhantes que seguem nus e de pichas entesoadas.
II
-Oh, vem! Anda para cima de mim! Penetra-me bem fundo! Eu amo-te tanto. Tu nem sabes como eu te amo tanto, meu querido. Desde o primeiro dia, lembras-te? Estavas tu parado no apeadeiro do autocarro. Sorrias para uma criança que dançava à tua frente. E eu, quis logo agarrar esse teu sorriso com os dentes. Eras tão cândido! Oh! Vem para cá! Fura-me! Anda! Tu olhaste para mim e continuaste a sorrir, como se a partir desse momento também eu fosse criança, uma criança bela e despreocupada. Eu logo ali me despedi do mundo para me devotar a ti, meu amor... E deste-me a mão em silêncio e levaste-me a passear rua abaixo. Como eu gostei de mim e do mundo naquela hora! Anda! Enfia-mo todo! É bom! O nosso namoro foi tão bom. Ainda recordo a tua mãe que ainda era viva e quando tu me apresentaste a ela a ela, como ela estava feliz; não parava quieta, sempre a perguntar se queria isto ou se queria aquilo. E eu amei-te ainda mais por ver que eras amado pela tua mãe. E éramos os dois tão lindos. Espera aí! Deixa-me levantar a perna. Agora! Mais rápido! Espeta! Oh, meu amor. E os dois tão inocentes. Fechaste os olhos quando te mostrei pela primeira vez os meus seios pontiagudos, e coraste também. Nem queria acreditar que ainda havia rapazes como tu, tão belos, tão sensíveis e amorosos. Estes tempos agora são tão esquisitos. Oh, querido! Rápido! Mais rápido! Rebenta-me! Oh, meu amor...
Airf'Auga Carcasse JP
Três ponto
Metalurgia
Anemómetro
Desprezado, obscuro e espoliado
Depois da morte, elevado ás honras immortais
O término da questão social perante o tempo
Masturbus
Cântico Semi-Rami
Airf'Auga Carcasse Bronssi A5
Bronssi
Pumbra
Metempsicose Aptúndica
Airf'Auga Carcasse Violeta A5
THX
Letras Douradas
A Árvore do Poeta
Lorelei
Cássio
Airf'Auga Carcasse BG A5
Airf'Auga Carcasse Vénus A5
Venus of Kazabäika
DRAMA ESTÁTICO A DUAS DIMENSÕES
ou
A PARAFERNÁLIA DO DESOSSADO
Airf'Auga Carcasse BG Contos A5
Metalurgia
Juca Pimentel
Anemómetro
Ali vai ele,
o coito!
Ali vai ela,
a sombra!
Om os meus olhos negros de panos
de censos e fúteis enganos
o último take da tua enodora exctimada, lodora,
tútril, enxangue, ólida, quesh´ra, parfidean, lockia,
loucura.
Os macacos escapam do toque como pequenas maravilhas todas feitas
de pérola enrubescida pelo Sol que queima como um farol anunciando
a extrema loucura
que evapora os sentidos para os tornar pontuais
a ponto de serem ponto no meio do círculo
flutuante onde as mortes se amam.
Juca Pimentel
Os bons sentimentos não são boa musa...
Vai dar-se início à Arte. Vou tocar
Uma punheta!
Sorvo o teu odor como se fosse
um pincel pincel de formas bem augustas
e Agosto é o tempo de cobrir a ramagem
que verte orvalho e termos de esporas.
A tua esporra poderá ser bem vinda
se for a de ocasião e de termos
inequívocos e fortes como se fosses
a madrepérola do tempo em po po.
A fome que temos é grande
e assim aspiramos o odor do vazio.
Da noite...
A sonolência que te invade é toda feita de pérola
e assim aspiras o odor do vazio.
Da noite...
És a minha sombra volátil e suspensa.
Ternura antes de tempo, fútil, encomenda extraviada.
És a paixão do excremento,
súbtil, encomenda extraviada.
Longo eterno beijo na nuca entreaberta pelos
lábios semicerrados de sangue.
Vermelho o teu olhar e enfim sós.
Eu tu e o machado suspenso da gaiola em cima
do chinês.
Afinal o chinês é alemão.
Som de violinos são as vozes dos entes parentes
e crianças infantes de sagres preta fresca à noite
numa mesa de Bar verde. O Bar.
Tantas palavras e o que resta; a mortandade
do espasmo senil que gesticula perante mim,
em frente a mim,
acenando um cadáver isquesito
de contornos fáceis e previsíveis
mas perto da mãe Sol transexuada.
Quero-te e entanto não estás, pelo menos como
devias. És-me tão somente.
Como foste criar a sombra.
A eterna. A sombra majestosa do início da noite das
vinte e três horas e treze minutos no relógio cinco adiantado.
Analfos.
Clima ensurdecedor e pobre de ser
útil porque queima.
(Os teus ventres salientes são ensurdecedores)
Afinal o chinês alemão é alemã.
Mais violinos a comporem bela música para os meus ouvidos.
Acaso paraíso terá esta definição?
Lógicas em mim e de mim afora dentro de mim e sons e
violinos e chineses alemãs por implicação matemática, mas
aqui a matemática está a mais, as coisas deveriam ser
lógicas apenas por implicação, e instruendos
de instrumentos nas mãos, história, agonias talvez
do século III e turbinas com os cornos no chão, e
turquídeas ferozes sem o sentido correcto, e vales
a subir um escorpião todo feito de pénis e todo
implodindo-me na cara.
Um apenas som espera do outro lado do salão,
as mãos unem-se pela ponta dos dedos antes enfiados em
cetins de crosta, com as velas incendiadas nos cabelos
das Níneves que dançam.
Rostos de corda, notas nos dentes, Mozart nos regaços,
olhos nas súplicas... e cada vez mais
plurais em grupo de dois.
Longamente o teu olhar persegue-me
doce maravilha esta fuga de pernas no ar em cima
do cadafalso
veloz esta súplica que tende a sentir o infinito muito maior
do que o imaginado
longo olhar vazio cheio de cheias no país da eterna secura
funerais aguentam o meu corpo
cortejo imagem fútil esta a do cortejo que segue atrás.
Antes foi o tempo das misericórdias, vestes incendiadas do
desejo, antes foi o tempo das carícias nos ventres inexistentes
das orquestras, dos violinos.
Coisos. Luvas. Larvas. Ternas. Rouquidões.
Vejo as pessoas mas não as sinto. Quer dizer, sinto-as
de uma forma que julgo não ser perfeita, única,
ou pelo menos multicolor, sonora, completamente única.
Os toques fortuitos nos guarda-chuvas apenas me dizem
que chove na cabeça destas gentes de pénis murcho
em direcção ao trabalho.
Três ponto
Desprezado, obscuro e espoliado
Depois da morte, elevado ás honras immortais
O desprezo, a obscuridade e a espoliação do contemporâneo poderá ser a fonte da sua imortalidade. As honras poderão ser nada mais do que germes que minam a consciência, pois a elevam da categoria humana e assim a terminam. Homens elevados a Deuses são apenas falsos homens. As estátuas matam mais do que a fome.
Os novos olhos são-no eloquentemente,
com pontas de espasmos senis e febris e sonoros como um peixe.
Ânus transversais querem-se amenos e
aconchegados de medo.
Torna-se tudo reflexo e despojos verdes analfos
pela tempestade fora. O meu odor não é o teu.
E assim a realidade tomba de lado até tu desapareceres.
Porventura desconcertante?!
Dois melões e um pudim!
Que sensual esta mulher de dois melões e um pudim.
Passas, passas, olhas e não tens cheiro porque não te cheiro
porque passas, passas e apenas olhas.
De bom grado agarrava-te um peito e
o mostrava ás minhas gentes.
Um dos teus peitos apenas seria um, mais um,
mas um cheio de todo, todo cheio de toque,
todo tocado pelas minhas gentes de peito na mão,
com o teu peito na mão que seria uno e perfeito como o teu
outro peito.
E agarrava-te o teu peito menos um, um menos um
elevado ao infinito das minhas gentes austeras e
risonhas porque esperam algo de mim.
E eu dar-lhes-ia o teu peito zero.
Analfos.
Estonteante a tua sobriedade piedosa de Deusa.
Om os meus olhos são-no imperfeitamente,
e mamo-te como um desesperado.
Ontem aquela mulher era um anjo.
Ontem que foi ontem e será sempre ontem
na comodidade das ondas.
Tu deixas-me maluco.
Domingo de manhã.
Claro está que a meta morfose é
um paradigma que só a inteligência justifica e
demonstra. Um ocaso imenso de ficção.
E claro está que temos um censo fora da lógica,
e ilógica porque lemos e estamos imersos em céu azul dentro das cidades.
Antes do tempo.
Antes do tempo.
Blá-blá que te esfumas e partes como sempre fizés-te.
Terror no circuito.
Em frente a uma porta quase lá.
Em frente ao olho esquerdo em frente do buraco.
A tua fechadura é imensa.
Brasa e calor na face esquerda. A tua pele de água queima.
O teu mamilo é enorme, pujante, escuro pela luz da lâmpada,
eternamente esquerdo, dentes, dentes nele, dentes no
mamilo escuro pela luz da lâmpada, mandíbulas.
Saio, e afunilo o som dos meus passos, pequenos e a contratempo,
duros, sólidos, como gaitas de foles tão rápidamente cheios como vazios.
O dia não nasceu há muito, pelo que as ondas da multidão
tornam a rua um pequeno ribeiro sem peixes nem ostras
cheias de pérolas que um dia estarão nestas montras.
O meu reflexo esvaziado nos vidros destas montras assemelha-se a um pequeno riacho com peixes e ostras cheias de pérolas.
Vou comprar cigarros naquele café da esquina com mulher estilizada nela.
Vou também dizer adeus a essa mulher que dorme ainda entre
as rugas dos meus lençois.
-Mulher sólida, perpétua, que fazes café na manhã que é
ainda pequena coisa em breve majestosa mas pequena agora.
Tomo o café com pequenos goles. Sinto um cheio aqui dentro
do meu querer, um cheio grande e voluptuoso,
tão perto de se tornar tudo. O sono vai descendo à terra
como um pássaro gigante. Eleva-se dos meus pés um pequeno
pó quando me dirijo ao balcão e peço um maço de cigarros,
aquele ali, do lado direito, o primeiro da fila da direita, em
cima, não, o outro, sim, esse, obrigado.
Saio, e afunilo o som dos meus passos, pequenos e a contratempo,
duros , sólidos, como gaitas de foles tão rápidamente cheios como
vazios. Um breve olhar pelo meu pequeno mundo mostra-me
A minha pequena grandeza. Esta cidade poderia muito bem
um dia matar-me.
Comboio do mundo, súplica em uníssono sem acento,
rosa a florir no sapato, de solas desfeitas, paredes vertidas na horizontal,
medíocre cantilena de sangue.
Os medos fundem-se aqui,
como estamos livres do mundo e de nós, arriba,
frente para a frente que se quer vício e não rotina,
e amenas obras nos leitos, resíduos de mim.
Temos um olho demasiado fechado, os outros atiram pedras
e nós continuamos com um olho demasiado ranhoso.
Ala para a frente que se faz tarde.
Acima os cumes acima que estão longe, estas subidas e
pantominas nos vales, estes fusíveis da unidade quebrada.
Som, movimento, gargalhadas, uma porta que se fecha, não, não,
vozes completamente desconhecidas, suave embalo, a frente está
atrás de mim, nas minhas costas, e eu não a vejo, vejo
apenas o que já esteve à minha frente mas está agora atrás de mim,
mas de frente para mim, porque eu sigo de costas voltadas para
a frente a para algumas gargalhadas, ela está a pensar em... sei lá,
sente, amigo, achas que vou cair?
Cheiro a presunção.
As hormonas explodem, seios tesos, pissa que apetece morder,
cona sonora de vento.
Treze vozes que se juntam aqui.
Estão aqui. Sentadas pela estrada fora e amenas.
Antes volúvel que vulva aparente.
Política e ciência: o mito do desespero.
Analfo este som.
Vibrante este som.
Inteligência aberta na carótida.
Fosso no ardil do cão com cio,
funesta majestade de sombras feita e impelida.
O mundo está de antemão fodido.
E eu à cabeça!
Linda mulher de cornos dilacerados, vestes de sombra os passos atrás marcados, atrás de ti.
Tens os olhos incendiados por uma qualquer perífrase do espírito, sanguessuga da mente,
e volátil és na dispersão, meu cruel suicídio.
Nas tuas mãos os cantos pareciam diurnos, para se anteverem no
escuro mais tarde, olhos, em brasa.
Ai a mente de quem é um e não dois e meio.
Linda visionária do tempo.
As armas ao alto dão-se nas datas de festa, na data de dias enormes
que se seguem a esta noite, se os houver.
Cercadura
O romance trepa pelas
paredes como uma andorinha ferida
teimando o seu voo.
Funde-se com anemia
na alma das gentes de espírito
que trepam pelas paredes como doidos.
Os hediondos estéticos assumem
o seu amor por aquilo que excita,
consomem as entranhas em jantares de pompa,
e fornicam a arte por amor ao Deus.
Regular a beleza é cercar os sentidos.
E o romance trepa os sentidos
com paredes hediondas.
Crer na Beleza é morrer.
Os Amantes dispersam-se pelos campos nus
de vergonha.
Num voo rasante cortam
as amarras que os prende ao sol pedra,
beijam-se num atónito sentido de si,
a estética prende-os ao sonho de outro.
É tempo de se espetar as agulhas
no âmago do querer,
inflamar o sangue morto
com a alucinação do romance.
Os olhos turvos animam-se perante
a sua própria imagem,
olhos que querem o fundo de si,
olhos que se amam como se fossem únicos.
E tramas de conas, pissas.
Sombras voláteis.
Batem-se as portas
num tremer constante de pó.
Quando o trono,
bandeira encenada,
é vertido em súplicas a três dimensões.
Pois quero que estas palavras queimem.
O habitante menos um
revolve a sua origem de homem-todo
para se sentir presença em rodopio.
Os tempos trocados
afirmam-no em dor.
Quando os hediondos plasmáticos
se fundem para tolher o passo do simples de espírito.
É sempre este tempo de penúria.
O cancro foge da mente em forma de ondas.
O cancro é bem vindo quando é do próprio dia.
A sua maravilha e a dos cornos confundem-se
como sombras,
é deles o trono nos céus.
Como me apetece esbracejar o corpo,
dominá-lo no anti momento da sua desgraça
queda.
As cinzas queimam-se ao vento suave,
implodem os tronos que deixam para trás,
o seu tempo será o de anemia
e lógicas de fundos em brasa,
pernoitarão para sempre no mistério.
Como me apetece esbracejar o corpo,
atirá-lo no anti momento da sua desgraça
queda.
Coloco os cornos
todos os dias que me embelezo.
São bem belas estas astes que me encimam
a inteligência.
Por isso mesmo estou à vontade
para continuar a minha estupidez.
Quando se ama
é preciso estalar três vezes os dedos.
Pois o início é o tabu.
A não promessa como compromisso
maior.
O desvario.
Olhos nos dedos de morte.
Até se esgrimar a sensação
do fundo que submerge.
Não percebo bem o que digo
mas sinto-o demasiado.
Como de resto se pode
sentir tudo o que apenas
pertence ao desejo.
O Romance quando nasce
vem sacado de roubo.
Um tumulto de tronos no Hediondo.
As mulheres gostam deles nas orelhas,
para que se tornem
enfim quase belas,
pois não haverá maior enternecimento
do que o mistério.
Os seus beijos pálidos assemelham-se
a rasgos de heroísmo,
as suas cabeças tontas assemelham-se
a caralhos ao vento,
porcos quanto inocentes.
Como toda a gente que conheço.
Os hediondos estéticos são indomáveis,
e matam para o provar.
Líquido
O alheamento
nas trombas,
nos volúveis estados
de metalurgia,
encandeiam a posse
como se esta fosse para bem
longe,
para o fim da utopia
ou do fardo que dela cresce.
Essa utopia lenta,
tipo valsa de de fúnebre alento
com ondas de vermes que dançam
nas balaustradas do desencanto.
Essas vozes em
coro desarmonioso,
fausto e pobre
no mesmo sentido desabrido.
Se calasse
os tempos,
eles me diriam que nada mais podem
fazer
ou alhear
e que tudo não passa
de sombras,
novamente estas sombras
de olhos em furos de fome.
Tornozelos vazios.
Nas tuas eternidades que
se afastam,
que calam os membros,
que calam os tempos,
que calam as frontes,
as minhas,
as do ninguém,
eu despejo ácido e vibrações sonoras.
Não há perícia
que afronte estes mistérios.
As portas abertas deixam
passar apenas um vento vazio,
destituido de prática
e inerte no além corpo.
No meu além corpo em sangue.
Toro psicadélico.
Anulamento.
Entram estas
mulheres no perímetro
do meu fumo.
Mulheres anciãs,
com ventres cheios de
mistérios orgânicos que me
faltam,
que eu deixo para trás,
deixando-me elas para trás
quando se ausentam
na procura de um
outro espaço.
Metalurgia.
La ter gia
fonde de mental ka ess kas
La brume
et donc par le aeniman troissure
Toissence
La brume
Os panfletários
progridem o som
pelas pretuberâncias
que colocam nos
seus actos.
Amam-lhes as frequências.
Pom.
Sombras de mim mesmo.
Porque continuo meteoro fútil,
pobre,
meio animal de consolo,
que nada, mada sada,
nada, nada, vale.
Mas ao mesmo tempo,
vejo estes galos de
lenços na cabeça,
mestres da dança do arrepio,
estes benfazejos
da musicalidade
e da felicidade na terra,
e a deslocação é demasiado grande
para que não exista algo.
Algo por que valha a pena ser eu.
Onomatopeia
que prende os
tempos.
Bem sei que o argumento
por excelência
é o absurdo.
E este absurdo é o meu argumento.
Piano ventríloquo,
que te expandes por estas
paredes que recordam
o esquecimento de umas outras,
que alimentas
os mesmos alentos dos ventos d’além,
e baixas
agora a frequência até
esta se tornar
saltitante
apenas por existir,
és testemunha
do meu trono vazio.
Falo-me com todas as coisas que detesto.
Desço muito baixo para comprovar o
que sinto
sou.
- Eu, perante ti, transformo o sonho no seu próprio ocaso inevitável e profundo de turpor, que se escapa para logo se fundir como um escolho da mente, e no entanto será sempre a irrealização a ditar este sonho, esta volúpia que apenas existe na tua cabeça. Nada importa eu saber-me bela ou incandescente; tu não me realizas a potência que em mim sinto, não procrias o meu corpo de sensações irrecusáveis. São apenas velórios mais ou menos especiais, de figuras que colocás-te em mim, mas que eu não reflito, que se apoderaram de ti como se fossem minhas, mas em boa verdade não existem. Como se o papel onde escreves as tuas façanhas fosse de fraca qualidade e assim se detiorasse à mínima agrura atmosférica, ou à falta dessa agrura. Tudo se torna num ponto onde a máxima procura é ensimesmada, sem sentido, ou com um certo sentido que não é o meu, e mesmo que fosse eu o recusaria. Bem vês que a verdade é bem diferente do desejo que a sua procura desencadeia. E se assim não fosse, cá estariamos nós para que assim se tornasse.
- Muito bem, afasto-me.
O terrível desespero da saudade
O terrível desespero da saudade
Tremenda sonora partida do fundo para dentro
Quando todos os mistérios se fundem em sombra
E a morte espreita pelo canto do olho da morte
As súplicas errantes de quem tem um medo maior que as mãos
E faz a penúria tornar-se grande quando faz zumbido crescente
Quando a côr se desprende do tecto
E assinala a turva existência sem meios
Alas em busca de fome e proveito danoso
Funda escarpada que sobes pela nuca acima
E te esgueiras pela mão do condenado
Fútil como pérolas
Anátemas de juventude em sangue
Longos beijos te dou
Meu amor de longas carnes
E sons de púrpura em seda milenar
Ventos do fundo bem preciosos
Amálgamas de fetiche cornos no chão
Lambes-me a mão que me ergue o despudor
E tramas de conas enfileiradas por cima dos sentidos vazios em ti
Além do fim será sempre uma súplica
Ter o deus na fuça sempre a tremer perante o teu escalpe sagrado
O terrível desespero da continuação
Permanece em mim
Pelo tempo fora
Como se tratasse de um sino de fraude possuído
Entidade arbitrária
A alma pode ser um refugo mas continuará pálida em paralelo
Vezes em demasia pelo tempo fora
Um contemplar de outras razões que não a usam
Plurais de formas pouco definidas
Em solavancos de sonos entrecortados pelo medo
E tudo isto a sonhar alto enquanto a queda é eminente
Vamos morder o sono da mente
E tornear os dedos que se fecham
Fumar um estrondo metafísico porque meta inalcançável
Olhos de penumbra meio céleres e vagos
Deitados pelas encostas de declive suave
E duradouro
Dannar é um impossível
Tal como os números sem razão aparente
Dedos de fungos cheios mas solenes
Semeados em terrenos tão férteis como obscuros
Prevejo a minha queda como um farol
Prevejo a deusa dançante na minha mão que não é um bem
Apenas propriedade
Alto vazio
A escolha poderá muito bem um dia tornar-se impossível
Quando a irrealidade tombar e o meu nariz
Aquecer-se de encontro à penugem do teu sovaco
Admirávelmente de encontro a ti
As vezes que escapam ao sentir
Desabrochar no jardim de pedras
Aquelas que nem eu nem tu lá pôs
E fundos de moda fantasmas na luz
Sempre um desejo que se quer único na vertente do verdadeiro apocalipse
Que torneou o odor dos fins de tarde amenos
Chupados por deusas inconscientes e belas
Perfuradas por mancebos a contraluz
Lama perante a vergonha de ti
E turba de fome a cair aos pedaços
Inconsequentes os teus passos
Lume fome inalterado
As raivas são grandes se forem do próprio dia
Amar-te-ei então em dias alternados
Os terrenos da alma são breves passagens pelo cosmo, pedaços de inércia tão original como o pecado
Eser de mercúrio inflamado
Sono perpétuo te extingo a afinidade com o diabo
A solo de três quartos de nota
Breve majestade de erro
Súplica em fúria
Masturbus envolve-se na miséria
Pensa três vezes na morte
Um rodopio na presença de Deus
Castra-se no tempo e luta em demasia
Amas-me o tempo todo feito de caralho
Calabouço suspenso no âmago do teu terror
Longo e ameno franzir de olhos
Turvos como a noite de Inverno
Fria no passeio de pedras pequenas
Lagos afectos dentro de mim e apenas isso
Todo o tempo foi talvez um tempo de misericórdia
Miséria
A deshonra dos sentidos
Dá-se no campo da metaformose
Passadeira
Anatomia do golpe pérfido.
Na loucura que assombra o sentir simples,
e o transtorna na extrema placidez de um gemer de troncos,
mastodontes febris como a minha loucura,
ou como a minha amante só.
Nesta esquina de rua civilizada,
onde o pó não tem descanso,
onde as sofreguidões não têm descanso,
e rondam os passos como se fossem areia.
Presos.
Sentado à mesa que escolhi,
ou que me escolheu pois esteve sempre aqui à minha espera,
imóvel na sua plenitude diária,
verde na sua estética diária,
imutável,
testemunha da minha própria mobilidade de cobra.
Os corpos que se venderam passam por mim.
Aqueles que como eu também um dia
aparentaram essa mesma mobilidade,
e no entanto agora deixam-se estáticos,
mas em movimento,
nas suas viaturas blindadas.
O tempo transforma os corpos.
Deixará incólume o espírito.
Um sonho uma vez,
um sempre sonho.
Uma aparência uma vez,
um sempre nada.
São apenas os corpos a desejarem
outras metafísicas,
outras podridões de um outro quilate,
e a mente a ditar o seu rol de intrigas.
As suas clarabóias de anestesia,
inercial,
porque sempre a mesma.
A velhice será a única comprovação
daquilo que somos neste preciso momento.
As coisas serão as mesmas,
instalando-se apenas a preguiça
de esconder o que agora desejariam envergonhadamente que fossem.
E afinal de contas,
os corpos apenas passam honestos.
Nas têmporas
Do dia negro eu encontro repouso,
suicida mental de um
turpor maquiavélico,
sopro de penumbra em torno
da auréola mortal
que assombra,
fundo que pressente
o terror pelas mãos
de prece oculta.
Libertinagem.
Neste café de esquina
que assombra pelo desconhecido,
e é sombra que me
anula pela intensidade que se
esvazia,
esta mesmo que de mim
brota na parafernália.
Os homens que entram
com os líquidos oblíquos
nos rolamentos do seu andar,
e olham a sua refeição de Rei
antagónico e cru.
Cobradores de almas vazias,
com lixo a compor a
imagem da flor que
não tem dono,
que não é deles,
que não é minha.
Eles vão e voltam outros.
Planeamento.
Falha inacabada.
O que sei são apenas dúvidas,
alimentadas pelo embalo constante
das fisioterapias internas
que a mim próprio imponho.
Como cachimbadas de ópio semi-controladas
por heroína hedionda.
Um quanto nervo para
a progressão da pirueta,
uma quanta ferroada
para a travagem que se pretende súbita.
Um alento,
um desalento.
Um débil sim,
um forte não.
Ainda resta fazer a soma
destes processos todos.
Até quando?
Os transeuntes
atravessam-se plenamente,
vorazes,
mas cheios da calma
que o conhecer o seu presente
lhes dá.
O sarampo
cresce como se fosse pó inacabado
dos tempos tocados alados,
feridos nas têmporas da morte,
aquela que me é como amante hiper-perfeita,
a que me morreu.
Poema destravado
Não vou escrever para ti.
Baixam-se as asas
pelas rochas leves de água
em espuma quebrada
aos solavancos.
Tenho visões de
mares em rochas quebrados
e espuma em saltos
aproximando-se através do vidro.
Vejo as rochas e o
mar que surge em catarata
e a água se fende
na espuma que
salta.
Mas já as vi há tanto tempo
que já nem sequer sei como eram.
Já as vi há tento tempo
que se tornaram incómodas.
Porque o que transmito
não são recordações.
Este anemómetro tolo regula
o fundir,
o estranho metafísico,
porque sangue em sangue se forma,
é animal que geme
e vocifera o além possível
como um coxo,
e pumba,
cá treme o punho porque a mente se torna idiota.
Vou-me deixar
cair na lama,
e olhem que não sabem o que eu
sinto por ela!,
vou-me libertar no tijolo que em
mim mente,
pelas horas mortiças
que me encandeiam a mente
no ponto alto da minha fúria tão tesa..
Anemómetro adorado,
fúria de Alberin;
o turno da noite
que se esconde na
sombra,
que me lembra a desmembração
tipo série
em paralelo
com dois solavancos de preta.
Um olho
pelo outro sempre ficaria bem,
e apercebemo-nos sempre anemómetro
desta dúbia sensação de tudo
o que se diz ter a ver contigo
e do que falo é do
meu olho e o da preta.
Plêade dos povos,
a mestiça ronda-me os panos com o
seu braço louco de tom
e punha-me nela se fosse
tempo de sentir.
Ela é a tal da cor que
não existe,
a tal da cor que eu fabrico com
peles de várias mulheres
das quais retirei a luz
até ao negro.
Disforme pelos
cantos das paredes,
meio curva para
acompanhar o
som que enche os cantos
destas paredes,
com estas paredes
a serem paredes
e eu a lembrar-me delas porque
quero ser poeta,
e a merda é outra.
Não vou nada,
não tenho nada,
e as coisas não são assim
ou assado,
não são de uma maneira de puta,
nem ohs nem uis pois
a merda
é outra.
É outra!
Só não sei o que é.
Nem sei se é isto,
mas pôr o tempo
no papel é fodido.
Palavras para quê.
Não escrevi para ti.
Lamaa
Alama é sedooosa
Trem’o tempo numa onda
no labbirinto que lh’ aclara
a fronte diabo de Deusa.
As trantas divinas vão-lhe saciar
a fronte sedooosa de musa
tua mulher divinal medusa
tua virginal
mulher em fúria
campãnoola suave lamúria.
Nan tão pouco
surge belo o horror do só
pelo só estado de amourir
o lamento que turva com os oiros
frios lentos solenes nos dentes
que me pisam o corpo
na alma dura tão pura
na alma dura tão sua.
Alama é sedooosa
Trem’o tempo numa onda
no labbirinto que lh’ aclara
a fronte pura de Deusa.
XER
O término da questão social perante o tempo
Algum tempo é constante: a sua passagem mede-se por sub-intervalos iguais.
A aparência inflamava-lhe o corpo.
-Porquê que há tanto tempo não fodemos!
Ela, de olhos fechados, braço sobre a barriga, com as mãos a afagar a sua cintura.
-Não sei. Só que... apetece-me mas tenho muito sono. Tenho andado com muito sono.
Ele ouviu e prezou o seu tempo, e a loucura que o purificava ali, naquele momento.
-Queres tu dizer que não temos fodido porque tens sono – ergueu o punho bem alto enquanto desprezou acima de tudo o seu querer.
-Oh! Eu sei lá, não tenho uma razão para estar assim, pode-se estar e pronto,e eu, meu deus, quero um sonho mas não o tenho, enquanto tu, foste a bandeira majestosa que se enxovalhou e agora não interrompe sequer o meu ressonar. Ali, bem longe, estás tu, mancha de betume, greta de porta que não se fecha, torneira em forma de cigarro que tanto oscila como cai, e apenas tu estás lá. Mais ninguém. Querido, não há motivos para eu estar assim. Além disso, há os comprimidos.
Barrei-me todo no sucesso, enfim, completo, da minha futilidade.
Liquidei-me sem antes me acender até ao brilho da brasa. Penetrei-me todo. No coiro da vida. Velha teia que afunda a beleza. Um traço oblíquo permanecerá para todo o sempre em mim, marca da epopeia heróica de um homem pelos mares de Tchau Tchin.
Ela agora dorme. Ele, sonha acordado. Um dia será um belo esquecimento.
Masturbus
Cântico Semi-Rami
Querida Masturbação
do género humano amada pelo tempo e tempo
Que manual te expandes sem outro auxílio que as belas mãos
e assim te escondes na fricção das glandes
com os teus instrumentos no âmago da uretra
Mecânica é tua força quando exercida no buraco anal
de imensos objectos provocadores da eterna tumefacção
É a tua psicose a engrandecer-te
O doce roçar levíssimo roçar pelos genitais
na Piça que te é adorada
Nos tomates de tusa
Foste tu que te apoderaste de mim
e transbordaste a sólida e numérica fama
do jugo Homem enfim grande
e violenta é a tua face de fome
Anciã a tua génese de tromba larga pelo Homem fora
Das trombas humanas padecida
que é longo o caminho da tua escada espiral acima
até ao toque que apenas pressentes
Galdéria adorada
Os dedos são tua armadilha e o odor do teu ocaso
entranha-se-me nas vísceras dos membros
quando o choro é apenas multidão de espasmos
Fetiche da multidão
macerada pela porcaria dos dedos
lixo
mecanicismo psicológico de sexualidade
Tu que fazes erecções experimentais de prolongada inércia
O Homem enfim cadela anseia e foge
coito do pré fabricado
Com um coice desbravas a multidão de sexos e sonos
de seios fartos e coloridos até ao ínfimo grão de cor
que tem uma determinada frequência espectral
e coloniza o afagamento
Se fosses minha vibrava-te um golpe no cérebro
A válvula na uretra
Ponta afiada na glande
Água a jorros por ti adentro ó Piça desmezurada e podre
Ardo-te o pénis e o membro agora outro vai e vem
e sugas-me o ser com esse fluido quente que por mim entra
E ponta afiada no corte
Corte na piça e dela sai o Amor
Louco como um corte
Masturbus
és feito de perícia
Inicias o canto enquanto as outras dormem
Enfiaste pelos pedestais e congeminas maravilhas
nas enfermarias do desejo
Metes-me no cú esse halo eléctrico e transmites
a voltagem exacta do meu desmembramento
Cú de energia ansiã como eu
Morteiro
Hipocondríacos de todo o mundo,
acaso uma punheta vos serve,
isto é,
acaso uma punheta vos chega?
Aqui está o homem só,
benovolente com a sua própria miséria,
ou mulher,
o que brota o além como se
fosse hipnotismo,
do barato.
Metrelhadora.
Na sua fronte soturna
brota o anfíbio supremo,
o que maravilha o adeus,
o só anfíbio solar.
La Beria
Meu amor de longas vestes.
Encaixo-te os dentes com alicates
marchetados a diamantes.
Bronssi
Pumbra
My body despedaçado
anseia pela tua existência.
Leve suave brisa do mar.
Não te amo de uma maneira
vã,
não te quero na comodidade
do meu abraço.
Quero-te violenta nos sonhos do amor.
Na Luz que incendeia os
olhos que choram baixinho.
O teu ventre sofre de mim.
O meu corpo sofre da tua plenitude.
És um beijo volátil do
tamanho do mundo.
Amo-te amei-te amar-te-ei
de todas
as cores dispersas.
E assim o meu vento
será sempre o teu vento,
feito de ondas de mar
da altura dos meus sonhos, enormes!
Os teus clarões de beleza,
aqueles
que os olhos permeiam de mansinho,
são-me totalmente pérolas em mim.
És o meu tudo.
Na tua morada do adeus
viste-me e amas-me?
O meu olho esquerdo vocifera
mil razões para te amar.
Se o teu olho viesse de encontro ao meu,
e assim juntos dançassem uma
balalaica de tempos imemoriais!
És demasiado diamante para
te ter apenas em carvão!
És o meu diamante mais puro!
Um leve odor de paixão
que eu retirei dos teus cabelos
é-me companhia.
Todos os meus passos estão
possuídos de ti.
Vejo-te nas esquinas,
aquelas que me querem muito
pois são cruzamentos de vidas,
vejo-te na garra dos pássaros
que passam em debandada e gritam amor,
pelos céus fora,
pela noite fora.
Vejo-te aqui e ali,
e nos dois sítios
ao mesmo tempo.
E ousas chamar a isso
outra coisa que não amor?
Diamante
Há sonho em
fim de tarde domingueiro,
em cor estilizado
e forte de pessegueiro construído.
Há corpos que se escapam
a mãos acolhedoras,
tão longe
se afiguram em
meias sombras renascidos.
Eu observo toda a gente com a
paixão de quem não tem nada...
Tudo são pérolas e diamantes,
pequenos cristais translúcidos que volteio suavemente
nos meus dedos ansiosos de recém-nascido.
Da mesa do café onde me encontro,
janela fechada para todo o meu passado,
eu antevejo as torres
torneadas a marfim do meu presente.
E alegro-me com isso...
E sinto-me todo,
sinto todos os meus músculos
prontos para a acção mais rápida,
sinto o meu cérebro capaz
do raciocínio mais genial,
mais impossível...
Oh! Não fosse eu apenas eu,
e poderia ser tudo e toda a gente!
Vejo mulheres a quem
gostaria de me dar,
vejo corpos que gostaria de sentir com
a palma da minha mão dourada,
vejo lábios
que gostaria de aflorar
com o meu beijo eterno...
Dia e noite
Sonho com o meu Deus de prata
agigantado ao Infinito!
Consumindo
vidas em suaves embalos de torso despido,
com o Sol a dourar tudo,
fileiras intermináveis de prazeres
a enternecê-lo e a embriagá-lo.
Apoteoses febris de luxúria !!
E eu a dirigir
uma orquestra de mil instrumentos feitos de sonho!
Não existem dobras nem rugas verdes no meu semblante.
Uma Rainha cristalizada e purpúrea levanta o véu
sobre o meu olhar...
Metempsicose Aptúndica
Ontem aspirei um sonho…
Envolto em malvadez e desencanto,
fui seguindo pela tracção d'O envolto em penumbra.
E quis ser generoso com a dúbia
presença do estranho sentir de sucção
que metamórficamente me percorreu o corpo.
Quis acrescentar que estava solto,
num percurso sonâmbulo de permissiviodade oculta.
No entanto,
fui interceptado pela razão omnítica
de acordo com a perda de censo que
me foi invadindo lentamente,
após longas horas de meditação em
volta de um sexo aberrante.
Depois,
foi a loucura que tomou conta do
meu ser.
A pouco e pouco senti-me invadir de uma
loucura corporal tal
que decerto estaria flutuando
num qualquer antro derivante do Astral.
Era,
sem dúvida,
a Permanência Newtoniana que discorria a espaços.
Cruelmente real e aleatória que tal.
Por essa altura senti-me
ameaçado por algo exterior que não sei o quê.
Acordei...
...na minha cama, no meu quarto, na minha casa
num corpo que não era o meu...
Z
Filigrana pura
esvoaçante ao vento.
És bálsamo expelido de
mim para fora,
com candeias azuis e vermelhas
encastradas no teu seio desnudado.
Fere-se toda a lucidez
quando te toco;
um tilintar de copos vazio
que ecoa na minha mente
asfixia o teu olhar.
O teu olhar vermelho…
Com fumo à mistura,
em confusão estrambótica
de sensações sem sentido,
que a máscara me escapa
para todo o sempre.
Arde volátil todo o querer que
é antigo e de renome.
Uma mulher pura...
Uma recordação...
Estreito o teu sonho
no sonho do meu Amor.
Vejo a tua voz que me acaricia
palavras suaves de sono,
em lençois brancos de paz.
Esses olhos em sombras projectados,
com as formas todas
vertidas nos teus lábios entreabertos.
O som de um beijo que cai
no fundo suave do corpo…
SMYNTHEUS (1)
dorso
torso
fim que ele escolhe
bum…
ar
vertigem
indício de côr
som
tom
a estrela é grande e foge-me
bum…
e
las
ti
ci
da
de
amena
do
fundo
da
alma
bum…
ouvem-se vozes de cantores mortos acima da
linha do horizonte decapitado pelos prédios altos…
vazio
sonho
narciso florido
explosão dupla
bum… bum…
(1) SMYNTHEUS é, em Antonin Artaud, Apolo Smyntheus: que é o
excedido, o extremado, o ponto de ruptura, o abcesso maduro.
THX
Sofia Bravo
OSSÂNICO
E se eu fosse a mais bela de todas as mulheres, o mais doce de todos os seres, a mais terna das criaturas, o que faria com tanto? Se não te tivesse a ti para me contemplar! E no entanto… não sou tudo isto, não sou nada disto, mas tu fazes-me sentir como tal. E tenho-te por efémeros momentos em Luas já altas, sendo a despedida sempre tão dolorosa e desajeitada. Parece prenunciar um fim enevitável, quando o que eu quero é apenas existir em ti!
A minha doença é incurável longe de ti, porque a minha cura…és tu!
E procurar-te-ei na impossibilidade, procurar-te-ei na improbabilidade de um para todos os seres humanos à face da Terra! Que vago!… Que vazio! E mesmo neste vazio rebusco-te, vasculho em tudo, e só vejo parecenças contigo. E nesse incessante procurar deparo-me com a infeliz solidão de quem ama… a solidão é sagaz… e descubro que ela esteve sempre aqui no meu peito, e que se instala cada vez que tu estás ausente, ocupando cada vez mais espaço á medida que o tempo passa.
E dói-me na Alma a minha memória!
A recordação das tuas mãos a sufocarem-me de desejo, essas carícias a corromperem com o teu cheiro a minha malvada inocência, esse alecrim e malva que temo tocar porque são o meu veneno. Esse veneno do qual saboreio a maldade de não te ter, de ser, de pertencer…
Este maldito destino, infeliz prisão de vazio que me deixa apenas flutuar nas minhas emoções desmedidas e incoerentes, para assim me deixar exausta de tanto desejar, essas malvas, esses lírios negros em que quase fui tua.
A confusão
reinou outrora
no sonho cheio de Poesia.
Hoje,
o amanhecer é bem mais confuso
e a alvorada tarda em chegar.
As palavras....
são o meu revólver,
e eu dou-lhes lustro cada vez que penso em puxar o gatilho.
O projéctil vai-me ferir,
como toda a incúria dos meus sonhos,
esses sonhos que tanto gozo tenho em medir.
O fim.
A minha única salvação
que reside na ponta desta pequena forma dourada.
Tenho no bolso o poder da vida e da morte,
e farei uso dele... em mim.
Antes,
vou-me descalçar nesta rua cheia de calhaus
e senti-los debaixo dos meus pés
com toda a intensidade que me é possível ,
e esperar que a dor me acalme o juízo,
que não tenho.
Os joelhos e os dedos dos pés também em peregrinação se lhes juntam,
e agora as mãos e o tronco.
Arrasto-os no chão húmido e molhado pela chuva
desta noite Invernal.
Sussurro,
porque não tenho voz para toda a revolta
que é a dor do meu corpo,
que é a Alma já muito
ferida no tormento negro dessa minha revolta,
alma amarga como fel,
invenenada nesta angústia,
sem fim,
sou eu
própria,
que se aqueçe nela
como quem se enrola num véu negro de Igreja
e o usa contra tudo o que é exterior.
É este o legado do meu descontentamento.
Este é o legado da minha dor.
As palavras são o revolver,
que dou lustro,
enquanto penso em puxar o gatilho.
És um jardim fechado
Abandonado ao vento.
Sento-me num qualquer dos teus bancos,
E não, não ficarei sentada
Caminharei antes, por entre as tuas árvores.
Olho as nuvens apressadas
Que logo se perdem nas folhagem das árvores
Que me cercam, e o vento que as agita
agita também um rodopio de folhas
Vermelhas, caídas no chão
Elevando-as até á minha altura
Numa espiral sonora, própria das folhas de Outono
Rodopiam à minha roda,
elevando-as e esmorecendo na canção do vento frio de Outono
O riacho corre sorrateiro
Por debaixo da ponte de madeira
Salteando as pedrinhas,
num sapateado alegre e distraído
Molhando gentilmente as raízes que repousam como
Mãos cheias de longos dedos na beira do riacho
Nas margens, o verde do musgo é tão alegre
Que dá vontade de gritar com ele
Toda a sua cor sublime de vida
E caminharei com os pássaros
A contarem-me histórias fúteis
A contradizerem-se numa estridente algazarra
Por entre este jardim fechado
Habitado pelo vento,
O vento sopra e espalha no infinito
O aroma silvestre dos deliciosos frutos
Que colho e saboreio como vinho
Em bebedeiras de vida.
Anjo perdido,
procura uma sombra
anda fugido,
algo que o esconda
de rosto triste
este sol que queima
alma dorida desta realidade que teima
desta vida sofrida
que arrogante surge
perturba as Crianças
e o seu tempo que urge
sacode-lhes a esperança
e deixa que a mente lhes turve
sem pensamentos nem Alma
eis o Diabo que surge.
Vida impossível
em todas as suas sinuosas farsas
as minhas lembranças atraiçoam o destino
que em caprichos é insuportável
Esta aguarela viva
que se pinta de caprichos
da mão de um louco qualquer
tela velha cheia de rugas
imperfeições da loucura
que atormenta cada instante meu
da minha vida esborratada
cheia de erros
cheia do nada
tu escreves em folhas novas
e pintas em novas telas
aquilo que haveria de ser
o meu Mundo
cheio de rosas
mas eu sou Violeta
e as violetas
morrem á chuva.
As tuas lágrimas
ferem, de uma forma atroz
molham-me de angústia
neste vazio...
na tua ausência.
e quem chora sou eu
e de angústia estou encharcada.
Letras Douradas
Letras douradas em pergaminho Violeta
Caras pintadas num teatro maneta
Portas Altas De fronte de um Altar
Negros hábitos encolhidos a chorar
Torre mística da Igreja Matriz
É lívido o sorriso que me diz:
-É por ali que tens de ir…
Não creio que seja feliz.
(Estática, tento esconder a minha voz)
Sou um ser híbrido que se molha
Com a dor de um ser feroz
E mata sem pudor o sentimento
Num agreste vento de Tarot maior
E que de repente
Sente algo que a perturba
E sou eu própria a sentir-me só
Adormecida num vale de Lágrimas
A chorar o belo a detiorar-se
A magia perdida
O encanto disperso
Na solidão que ninguém sente
Um sopro veloz de angústia
Dissipa o Amor verdadeiro e cristalino
Como as pedras preciosas desfeitas em pó
Ou as penas de pavão que já não voam
Que são cortadas para belos efeitos de velório
A sete palmos da terra do cheiro intenso
Da água putrefacta dos cemitérios
É só...
Está só…
Ainda não se libertou da cruz do calvário
Que é a da perda
Que é o corpo sem vida
Que jaz inanimado e sem amor
Como uma rosa vermelha
Que morre sozinha
Sem ninguém a contemplar a sua doce ternura
Sons de sublime perícia serpenteiam no sentimento fúnebre...
Vozes em lamúrias docemente sentidas de angústia perturbadora
E que gritam em uníssono represálias de uma sinfonia ardente
Falam de ódio porque não lhes é permitido Amar
Anjos de espadas procuram o ultriz
Oferecem recompensas a quem lhas vingar
Na lua brilhante de prata
Centelhas velozes de medo
Torturam e mutilam o Amor
Desse ser híbrido a quem não é permitido Amar
Poderei eu ofertar-lhe as memórias que me perturbam?
Poderei eu esquecê-las?
A Árvore do Poeta
Esse poeta,
feito de retalhos,
com a fisionomia
marcada pelos defeitos e virtudes
das paixões e angústias.
A face expressiva,
entalhe de vivências.
As várias faces.
A alma de cinza
ou verde de sempre criança,
na busca da inocência
ou sabedoria
do sonho sempre em azul.
As jarras onde crescem caules contêm a essência da poesia.
Dos caules
pendem folhas escritas
que voam ao vento
e voam muitas vezes
sem que ninguém as leia ou contemple
e passa o tempo
e elas caiem
como as vivências que mudam
e acabam no chão fértil do pensamento,
alimentando essa mesma essência
de alma
de poeta
neste ciclo.
Dor.
Sangue.
Representando assim o Amor.
Essas raízes bem presas ao chão
do Mundo terreno,
das paixões,
nesse amor de pássaros e vento
em voo livre,
de rochas que
estão sempre lá na sua velhice antiga,
com os minerais a serem a essência da terra
sempre mutável para nós,
que tentamos diluir nos elementos
do pensamento
tornando-os pó,
que se molda
de acordo com a vida,
e que eu quero diluir,
transformar,
ser.
Da’ Wah
-
Sinto-te...
no correr do meu sangue.
No desejo ofegante das lembranças quentes...
nas vozes, nos cultos sagrados.
És impregnado de fantasia,
tenho-te condensado,
no formol dos meus sentidos
em todas as minhas moléculas,
o teu ventre quente...
Todos os meus sentidos apurados, para te sentir melhor.
-Ahhhhhh!.........
In...
Já nada... do que foi real, o voltará a ser!
Ficará para sempre
nas catacumbas carnazes
do que jamais será...
Teri...
Derrama encanto,
mesmo em terras outrora adormecidas
Despertando um extinto sentido...
-Ahhhhhh!...
Or...
Abismo
Império perdido
Sétima dimensão
talvez entre a vida e a morte
e digo-te...
Esses teus lábios...
me beijarão!
O teu corpo...
se dará ao meu!
Num tal impulso de terror,
que perder-se-á no espaço,
nessa sétima dimensão!
Resgato-te
pelas pontas dos dedos.
I...
II...
III…
Rasgo e...
Chão!
Espuma, convulsão
Dilação, conquista
Grita, geme, fala,
caminha, anda, trás
Vem...Vem...Vem...
Onde!
Tardo na colina...
no vale que desconheço
na fonte perdida
Q ninguém viu
Nasceu ontem
Com a chuva de Inverno
Pura... escorre...
Dissipa
bosques molhados
Água, terra....
Barro.... Argila....
Tranquila da sua existência perdida
Passiva, crua, fria...
Existência ocasional
Capricho...compromisso
Meio de mim
se afoga em ti
à deriva, esconjurada
entranhada,
estreita
Quer endireitar-se
Assim...
Lunática obsessão, Rigoroso....
Vórtice, luping
No memorial dos sentidos
Infindável saliente
proeminente no passado
Impossível ser uma previsão futura
são os sonhos que me lembro
de não esquecer
são tudo o que tenho
no futuro
que não é meu.
Ainda...
Eu sei... aquilo quero é apenas o que quero, o meu desejo deste momento é completamente irreal. É precisamente esse o fascínio do desejo, ou não fosse eu o que sou, e deixaria de desejar o impossível.
O irreal é idealizado por mim até ao pormenor, para que o desejo seja aquilo que quero.
A vida subtilmente adoçada com o irreal.
Algo que muito desejo, tem as qualidades de um ser prefeito, que me parece só em mim existir, porque a perfeição não é universal.
O perfeito não se materializa!
Longínquo sentimento de razão que me traria algum alento sem sinceras esperanças busco uma coisa invisível, sempre ao longe.
Tenho nas mãos os cardeais de um tesouro, que não se situa neste planeta!
O Amor é um Beco sorvedor dos meus mais secretos lamentos, geometricamente medidos a partir de cardeais inconcretos, na dualidade de existências.
São espectros do sentir de fera mansa, que se quer equilibrar nas diagonais do destino, e aos tropeções perde-se em becos sem saída, No Exit.
Sou equilibrista nato que bamboleia na corda laça da razão, infinita teia crua da tristeza que se constrói na Alma, abafando-me assim o pudor, enlaçando-me com gestos mansos, deixando-me fraca com tanta ternura, vulnerável nas mãos de um predador.
Eu... estrambótico ser alado de sentimentos cruéis…
És a Obra-prima da minha loucura frenética em desespero melancólico.
E não te mereço nem por um só devaneio.
Sinto-te como um... mero frio, que me tacteia a espinha... dissipando-se em suaves delicias, ornada de magistrais prazeres, fulcro total, és tudo!
Eu, esqueleto trémulo, ténue, de memórias em vórtice, fragmenta-se em tremor no epicentro poeirento da tua memória. Espiral incontornável de sensações efémeras, ansiedade...
Enrolam-se por mim acima, com braços, nádegas, coxas, as mãos nas minhas, estas que desejam esculpir o torpe barro dos sentidos, levando-o depois para a ressurreição. Mas, para ti sou apenas a expressão de um maneirismo feito á toa, inobservante!
Lorelei
Obra-Prima da minha loucura frenética,
fluir de desejos melancólicos!
Ternura...
Lívido ornamento dos sentidos,
quer-me persuadir!
Nua...
Pérola Epiteal reflectida no espelho,
loucura inquietante!
Ossos...
Esqueleto trémulo, ténue de memórias,
cambaleia por entre destroços!
Morta...
Inspira as carícias fugazes
desse corpo que te quer possuir
na ternura do predador.
Ele é teu... Agora!
Tumba...
No turbilhão da confusa
dualidade das existências.
Penumbra...
Negro.
Albina e Cega
Morta e Des'Almada
Náufraga
Suspiro...
alívio que reconhece a esperança.
O sopro...
É o Vento dos Homens.
Estou enleada no lodo.
Mas talvez a superfície me encandeie.
Tenho a meus pés, os alicerces de uma grande obra.
Tenho a Alma em construção.
A ruína é majestosa, requer cuidados.
A construção... Perícia.
O mestre será virtuoso.
O propheta, cego.
O Deus, absorto.
O Rei, Imperador.
Já que a confusão reina, pondo e dispondo aos olhos da minha impotência, não é altura para provar nada a ninguém. Não há nada a provar! As provas ficaram para trás, assim como as escolhas acertadas; ficaram silenciadas nos presentes que já tiveram lugar. E lá ficaram!…
A vida é um movimento incessante, e quando acelera rumo ao nada, a vaga é tempestuosa, forte, incontornável , toma-la à força! E a nossa desgraça… A fadiga silencia-nos. Deixo-me então ir para um Futuro que ainda poderá ser claro, e descobrir a direcção a tomar.
Autómato andrógino fatigado.
Toda a permanência torna-nos estáticos. Somos todos iguais em qualquer estaticidade. Não nos desembaraçamos do cordel sempre esticado da virtude. Não nos desenlaçamos desse cordel demasiado esticado que nos começa a marcar os tendões, começando assim a falta de força. Largo a meada e tudo se desenrola… Rasgo por força o cordão umbilical e toda a pele que reveste o coração. Rasgo… pela força da mudança.
A mudança!…
O Novo... Paladar, Olfacto, Presenças…Vasculho e Rebusco na cumplicidade o que desconheço, e encontro coisas que quero só para mim. E nado fundo, nesse Futuro que ainda há-de ser menos turvo.
Vaga fria...
Fria de desconsolo...
Desalento.
Lancinante…
Cássio
Dormente!
Feto vacilante no recondito útero do Mundo.
Dormente!
Estático
Vacila e cresce numa redoma,
agita-se no seu interior.
Vacilante
Útero estático,
Em constante movimento,
cresce numa redoma de inquietude,
esbraceja de braços cruzados,
apertados de encontro ao peito.
Perímetro cefálico,
córtex condicionado ao Rei dos sentidos:
A Visão...
Enquanto ela domina,
todo o Mundo permanece encandeado na sua própria beleza.
A mente dormente,
encandeada em estímulos passionais.
Sente a proximidade do vácuo.
Um infinito impalpável,
longínquo...
Dominante!
Os sentidos são limitados
pelo perímetro da percepção, imediata!
Isolação.
Talvez nos abstraia do exterior.
Talvez torne possível a absorção do real.
-Não há progresso sem acção!
Sem interacção com o Exterior!
-Fecha os olhos!...
Percebe o porquê da nossa impotência!
Isola-te.
De qualquer comodidade
ou de outra existência paralela à tua.
No vazio...
Perpetua a procura de algo,
não sabendo exactamente o que é.
Nada me satisfaz.
...sinto-me completamente anestesiada.
-Que loucura tão contida!...
Loucura Lúgubre
dos meus sentidos mais rebuscados.
Tudo me parece tão pequeno,
quase tudo deixa de existir,
nada se materializa em desejo,
é tudo vago...
Amplo...
sem intensidade.
-O que se passará comigo?
Será que a ciência explica?
... A metamorfose do espírito insatisfeito,
em abstracção completa?
Desmaio em mim!
O Outro eu...
que ainda se mexe,
cutuca com uma Vara
Num Corpo...
caído no espaço vazio.
Só...
É-me difícil viver com ela,
essa companheira insalubre,
completamente insalubre
para os meus sentidos
bem apurados na loucura sentimental.
Dentro da minha Redoma,
estou fisicamente condicionada,
os sentidos parecem perder as
estribeiras!
- A qualquer Momento...
Suicidiária
e outros poemas
Bórgia Ginz
Suicidiária
Escrevo em desalento fortes sonhos castrados por mim
Incógnitos de cor verde que me penetram para logo me
Despejarem dor e acidez nos cabelos velhos e deslavados
Que eu sei serem meus, na escuridão do meu ventre só
Estou ameno, colhido na turva água do dia findo
Finalmente no arcanjo que chora com o gelo
Nas suas mãos doidas de espinhos a fremir, ferozes
Pilares que se encontram adormecidos por baixo dos corpos
Dos olhos de jóias perfuradas na noite pobre do meu querer
Enfeitas-te, oh, querida noite que tanto foste travo e testa
Cheia de rosas em semblante de oiro e que agora me
Deixas virgem de cor e som, escorregadio na neve
Eu vejo a tristeza dos meus queridos braços e pernas
Tatuados por amigos de cinza nos olhos febris
Eu vejo a amizade que os meus membros têm por mim
E que eu não aconselho ao fim da mármore alta do Judeu
Eu vejo homens violados por mulheres imaginárias
Nas esfíngies violentas do adeus sonâmbulo
Na noite adocicada do teu encolher de ombros
Nascem os tornozelos dos anjos cantantes
Das misericórdias supremas
Em fins de tardes coçadas por mãos de Deusa
Cruel e anónima, com os seus dedos esguios
A esvoaçarem nos campos de ervas cheios
Como os olhos dos felinos que se atravessam
Nas estradas onde não passam carros
Como os mendigos de pão no bolso que se afastam
Em ondas de pernas brancas e lisas no escuro
Como o suco de sexos usados em quartos de
Paredes vazias com os mirones entrecortados
Como a execução gráfica do condenado em páginas
Adoradas e torpes como violetas e narcisos murchos
Como as veias que sangram e dão vida a corpos
Nus que se estendem pela manhã nascente
No fim do mundo agonizante que quer pêndulos
No seu sexo guarnecido a jóias milenares
Eu sei que nasci para viver todos os dias
Com as mulheres que eu não conheço todas doidas
A fazerem carícias nas grades do meu calabouço suspenso
No ar imundo que eu respiro para morrer
Os pássaros que eu tenho no meu peito com cabelos
Não são meus nem eu quero aprisioná-los com
Palavras doces e mãos abertas em amor na ponta dos dedos
Quero-os a pisar terras que eu não sei
Que eu nunca sonhei mesmo depois de ter sonhado
Tal como as sombras que se abatem por sobre as paredes nos
Finais de tarde esquecidos e não violentos por serem sóbrios
Queria poder aspirar o odor dos gatos quando estão com cio
E em cima dos montes altos suspiram amor a cobrir-lhes o pêlo
Há na fome do mundo todo um olhar vazio que se detém
Sobre a minha nuca e eu piso com os dentes que se afastam
Amantes longos
A alavanca puxa o tronco caído,
verme latente a três dimensões,
que se dissemina pelos poros que assombram
beijos de cores disformes que se afastam.
Anjos supremos diletantes em esforço
anunciam a queda fusil de tempos novos
lestos alheios de antas vazias.
Nervocide beija o amante morto em furo.
O amante puxa a alavanca que se anuncia feroz
e permanece em força bruta entre os seus dedos de carmim.
O seu corpo beija Nervocide pela metafísica
e percorre os elos que faltam na obscuridade latente
entre olhos vazios furos de morte e espasmos senis.
As peles deixadas ao acaso sussurram perenes.
E a Bela deixa cair os braços pelos tendões.
Plano inclinado
Lamento sempre o que vem
e o que te tem
para bem longe do Unicórnio dourado
da minha lonjura.
Esta doce estranheza que embarca
sublime rumo ao monstro
que se deita comigo no fim de mim.
No fim é sempre plano.
Penetramus é o assombro do real inquebrável!
Viajo no encalço do tempo
meio perdido na imensidão do buraco
que nasce a meus pés
pelo movimento dos meus pés
que me enterra enfim sempre aqui.
Este impenetrável assombramento
do que foi e nunca será
a absoluta conjugação da Pirotécnia.
No fim é sempre plano.
Penetramus é o assombro do real inquebrável!
Bronssi
Lon Min of tuly
Ie donc par beltran
Ka ess kas et june
Ik tong pum pum
Sor per la fool des viles
Ik tong pum pum lokes
Dir fias el transksection
Jor lion filles et kas ess kas
Rimbaud loked in furt
Gonmeyer flip flop transisteur
Duct ca los tier
Ta beltran et ka ess kas
Venus of Kazabäika
Fora
O’, perco-me Toda!
Entro no Teu Dommynio de Sonho
e és a minha Funesta Maravilha.
Espero pelos Teus Anjos nos braços,
Gótticos Embates na minha Ventura,
e entretenho a minha Virtude
com os Tronos da Tua Pureza de Guerreiro.
A minha Mente é Tua Cama.
Aplicas-Te Duro na minha Coroa
e rolas-me nos Ventos do Nada para Bem Longe,
para a Lonjura.
E cá fico.
Perante O Negro do Tempo em que se Tornaram Os Teus Cabelos.
O’, perco-me Toda!
Enfio-me pelos Teus Pedestais Loucos em Fúria!
O’, perco-me Toda!
Vénus Caída
DRAMA ESTÁTICO A DUAS DIMENSÕES
ou
A PARAFERNÁLIA DO DESOSSADO
(pum)
Lanebt.
Quem tem os pós nos medos?
Lanebt.
Quem tem os pós nos medos?
Lanebt.
Fim
Dramaturgia litúrgica com arremesso de matéria
pesada na dilaceração.
Lamento diário a 5 rpm. 1 rpm=380º.r. Dissonância
concreta.
Sala senhorial com metafísica aberrante na
proporção. O encaixe dá-se
pela medula. Óculo transviado.
2º Fim
O homem podre afasta-se pelo meridiano.
A sala abate-se sobre a audiência.
Fim último
Em metamorfose oxidada, surge o pânico!
Lanebt, suspira de alivio!
Venus in Shadow
Mortandade elíptica
Vocês,
os mortos,
os que me rodeiam a pretuberância,
vão rastejar pelos lodos da fé
enquanto espreitam a oportunidade
de anteverem o meu sexo sagrado,
de lhe tocarem com os dedos de
esperma hediondo,
infecundo,
gangrenado.
Vão lamber os cotos pela lamúria
de serem tão toscos na celeridade.
Oh, homens castrados que nada
valem para além de um tiro!
Lamento-me de ser tão bem lapidada
no meio de vós,
animais da formatura
em rebanho.
Amputo-vos a sombra,
decepo-vos o cérebro quase existente,
aniquilo-vos o tempo que já vai sendo demasiado.
Adorarei saber o vosso sangue a escorrer pela calçada do cemitério,
depois do louva a deus que enterra os corpos e os leva
para o precipício de Abdalon.
Eu lá estarei, de pernas abertas e mãos em forma de adeus.
Venus of Kazabäika
Contos Normais
Bórgia Ginz
Sonâmbulos
Acordei tarde. Abri a portada de madeira da janela do meu quarto e vi como a noite se aproximava: mais alguns minutos e nada mais haveria do que a própria escuridão. Um sono fácil ter-me-ia rapidamente feito tombar por sobre a cama de lençóis desfeitos, mas quis ver até que ponto ainda dominava os meus músculos, e em verdadeiro esforço dirigi-me até à sala e retirei o maço de tabaco do bolso do casaco. Nada era para mim mais importante, naquele instante, do que levar o cigarro aos lábios e acendê-lo, até me envolver todo de fumo cinzento que por certo me afagaria a face ensonada. O rádio estava ligado. Mas não ouvia som algum. Dir-se-ia que todo eu repousava no mais inerte dos pântanos, amenamente frouxo. Regressei ao quarto e tirei do guarda-fatos um par de calças. Como elas pesavam! Senti os dedos, todos enclavinhados naquele tecido poeirento, a rangerem como guizos ferrugentos, entorpecidos. Sentei-me na borda da cama e fiquei a olhar as manchas de humidade nas paredes do quarto. Os ombros dobrados, voltados sobre si mesmos, como se fossem peças defeituosas de uma máquina qualquer, pareciam querer deitar por terra todo o meu corpo mole e doentio, até tudo perder o seu significado e eu fechar-me no aconchego da minha própria solidão. O meu vazio não tinha matéria: perdia-se a vontade no sono da carne.
Quando saí já a noite tinha inundado toda a cidade naquela ausência de luz que ilumina todas as coisas de uma forma mais pura. Caminhava pelo passeio, meio encostada às paredes dos edifícios, como se me precavesse de uma qualquer recaída que me fizesse desfalecer e cair. Os meus olhos perscrutavam em redor. Mas não viam nada. Toda eu repousava no mais inerte dos pântanos, completamente frouxa. Mas continuei, convencida de que estava a caminho. Observei as montras iluminadas em meu redor, cheias de luz a fazer-me cerrar os olhos e repletas de coisas inúteis que toda a gente vê mas realmente ninguém quer comprar. Apressei o passo. Senti-me impelida para a frente, em direcção a um desconhecido, tão desconhecido que no entanto eu sabia tão bem todos os seus contornos, a ponto de o ver bem à frente dos meus olhos. Gritei com todas as minhas forças; um grito sujo, imundo. Mas ninguém o chegou a ouvir: a voz entalou-se-me nos dentes, e dei comigo parada no meio do passeio, com a boca meio escancarada, asfixiada, desfeita pela angústia. Não! Não voltaria àquele sítio de maneira alguma. Não quero! Senti o quão baixo tinha descido, mas vi bem também como o meu sonho voltava a adocicar-me a língua com uma vontade tão livre que me senti forte, magnânime, única. Andei durante alguns minutos, pausadamente, desfrutando uma sensação que há muito me deixara. Até que me encontrei mesmo em frente àquilo que mais temia. A porta erguia-se alta e direita. Foi quando me apercebi que o grito estava sujo... de sexo.
Peguei no auscultador do telefone e lentamente comecei a marcar o número. Esperei alguns segundos. O sinal de chamada parecia-me distante, exageradamente longínquo, como se eu não estivesse ali; nem eu, nem o telefone, nem o mundo.
- Estou..., fez-se ouvir uma voz.
- Sou eu, repliquei, já pensava que não estavas.
- Pois... Acordei há pouco e estava no quarto.
Peguei no telefone e aproximei-me da janela do meu sétimo andar, donde fique a observar as pequenas pessoas parecendo-me tão insignificantes, tão sem sentido.
- Também me levantei tarde. Hoje foi horrível. Ela não estava de acordo com nada do que lhe dizia. Discutimos muito.
- Vocês não podem continuar com essas coisas, interrompeu ele. A continuar assim prefiro nem me levantar.
- Eu já não controlo muito bem a situação. Bem vês, ela é minha mulher, só que... ela revolta-se demasiado.
- Compreendo... Quer dizer, não compreendo nada: eu já não lhe interesso?
- Sim, penso que sim. A situação é que a aborrece, e sabes como a noite apesar de tudo a atemoriza.
- Mas ela vem ou não vem?
- Sinceramente não sei. Penso que sim. Provavelmente passará...
- Espera, estão a tocar, vou ver quem é...
- Depois volto a ligar. Adeus.
Ele desligou o telefone, ao que logo o segui. Voltei para a cama.
Ali estava ela. E eu continuava com a mesma sensação de dispersão, de ausência, parecendo mesmo que ela própria aumentava todo o meu mal estar. Olhei-a nos olhos e no entanto foi como se não a visse de todo, pois ela confundia-se com a minha própria sombra reflectida na parede. Quis dizer-lhe como gostava que ela estivesse ali, como tinha esperado todo o dia que ela aparecesse, mas não era verdade, e a cama ainda desfeita parecia não me deixar mentir. Ela disse qualquer coisa a que não liguei. O que teria sido: um cumprimento, um adeus? Sentei-me na poltrona e ali fiquei a olhar para ela, com o cigarro meio fumado entalado entre os dentes, com as pernas cruzadas em gesto de fuga. E foi então ela falou e eu ouvi tudo. «Olha, eu quero-te, todas as noites, noite após noite, sempre mais e mais, só que... eu não sou apenas um corpo, sinto as coisas quentes demais...» Não quis ouvir mais nada. Levantei-me, com as mãos trémulas cerrei as cortinas da janela do quarto, dirigi-me para a cama e sussurrei: «Despe-te...» Ela hesitou, e ali ficou com os braços pendentes como moribundos, semelhantes a corpos executados. O quarto estava agora cheio de um barulho ensurdecedor, vindo de todos os lados, dos locais mais escondidos e inalcançáveis. Eu não compreendia a origem de tanto ruído. Tinha desligado o rádio e de fora não vinha som nenhum pois a janela estava bem fechada. Num relance percebi a origem de tanto barulho: era ela que me dizia qualquer coisa. «Não faças isso, não assim, tenho medo de estar aqui contigo, de noite, só contigo. Eu quero estar contigo, mas de noite... também quero estar com ele, vocês...» A minha cabeça latejava, possessa de um silvo agudo nauseante. Senti-me submergir nas águas lodosas de um pântano, totalmente frouxo. Consegui chegar à sala. Levantei o auscultador do telefone e lentamente comecei a marcar o número.
O equívoco
Ali estava eu. Ofegante e completamente afundado na enorme poltrona do quarto encoberto em penumbra. O corpo dela jazia infielmente naquele pedaço torpe e cruel de mim, no meio do torpor obsceno dos lençóis em desalinho. Um fio de sangue sulcava a sua face esquerda, parecendo antes um golpe suave de baton que uma mão nervosa fizera perturbar a brancura da pele. Matei-a. Mas tive um bom motivo. Matei-a antes que ela me matasse a mim.
Nunca a amei de verdade. Era sempre ela que exigia uma certa auréola de maravilhoso a inundar a nossa relação, os nossos passeios, os nossos beijos supostamente inflamados. E eu olhava para ela e fixava os seus dois olhos asfixiados de tanta paixão, que não me restava outra hipótese que não a de tentar um amor que eu sabia impossível. No fundo, ela era uma mulher adorável que muito dificilmente eu conseguiria magoar. Tinha passado um ano desde o primeiro dia em que a vi, totalmente encharcada no meio do passeio a olhar o céu enegrecido, enquanto à sua volta uma multidão de pessoas se acotovelava para tentar fugir à bátega de água que se abatera subitamente sobre a cidade. Também eu não tentara fugir, de maneira que em breves segundos apenas eu e ela ficáramos ali, sem nada para dizermos um ao outro, mas felizes por não estarmos sós. Quando nos apercebemos estávamos os dois bem agasalhados a beber uns cálices de Porto, no aconchego do meu sótão. Descobri que ela estudava Ciências Biomédicas no instituto superior da cidade, e que falava fluentemente francês. Não foi difícil combinarmos um encontro, delicioso, que tornou fácil um ainda outro encontro, e mais outro, e mais outro... O tempo passou e agora vivíamos num apartamento pequeno que alugáramos. Não posso precisar como tudo se começou a precipitar. Apenas sei que um dia ela chegou ao pé de mim e me perguntou se poderia ir a uma festa com umas amigas. Eu conhecia todas as suas amigas, o que me fez achar a ideia interessante, pois já não era a primeira vez que fazíamos uma farra juntos. “Gostaria de ir sozinha!” Mas claro! Que ideia a minha! Era óbvio que ela pretendia ir sozinha! Só que eu, no meio do mais estranho torpor, tinha partido do princípio que estava incluído nos seus planos. “Claro! Claro!...”
Nessa noite não me senti na melhor das disposições, pelo que afastei a ideia de sair também. Tentei ouvir uns velhos discos que me pareceram extremamente enfadonhos. Não tardou a aparecer uma ligeira dor de cabeça. Tentei ler uns quantos livros que também não me interessaram por aí além. Sentia uma enorme náusea a percorrer-me o corpo; algo que me fazia tremer as mãos de uma maneira inconcebível, diabólica. Deitei-me na cama, onde permaneci durante horas, tempo em que não parei de me revirar de um para o outro lado, envolvido pela imensa escuridão do quarto que me apertava o peito. Não parava de pensar nela. O medo daquela solidão era bem mais forte do que o desejo de estar só. Não conseguia parar de pensar que fora derrotado por qualquer coisa que desconhecia, algo que tinha uns contornos completamente indefinidos, abstractos. E era exactamente o facto de não saber o porquê do meu choro que me confundia, ao ponto de me atormentar até aos cabelos. Tive que me levantar. E foi assim que saí. Tinha por todos os meios de encontrar uma paz que se me escapava. Talvez o frio da noite me restituísse o semblante ameno e calmo. Andei durante algumas horas, em que fui fumando os cigarros uns atrás dos outros, pois a caixa de fósforos tinha chegado ao fim. As minhas mãos pareciam possessas, dominadas por uma força, um nervosismo que não conseguia controlar. Tremia de frio. Ao longe vagueavam uns quantos bêbados, completamente embrenhados na sua loucura gratuita, alcoólica. Pensei que um copo me iria aquecer. Talvez o calor de um bar me confortasse por alguns instantes. Entrei no primeiro que encontrei. Encarei com dificuldade o tipo que estava à porta; ele olhou-me de cima da escada, e não sei porquê senti-me imensamente culpado, como se não tivesse o mínimo direito de entrar ali. Eu era um desesperado. Lembrei-me que já tinha estado ali, uma noite, com ela. A recordação bateu-me forte, atingindo-me bem dentro do crânio, e o mal estar chegou célere, sob a forma de um enjoo violento. Dirigi-me ao balcão e pedi um bock. Não foi preciso muito tempo para que me pusesse a olhar em redor, num verdadeiro esforço de a antever. É que tinha colocado desde logo a possibilidade de ela estar ali! Percebi então que não entrara naquele lugar, não tinha saído de casa e ido até ali por mero acaso. Vilmente, estupidamente, eu procurava-a! Acabei por vaguear pela cidade durante a noite inteira. Quando cheguei a casa amanhecia. Abri a porta muito devagar. Ela dormia, muito suavemente, completamente estendida na nossa enorme cama de casal.
Essa noite foi o início do meu declínio. Um declínio lento, muito lento, mas inevitável. Até que comecei a ver aquela mulher a assustar-me enquanto progredia nas suas pequenas coisas e todas elas me transmitiam o desengano do sentir. Os pequenos gestos começavam agora a tornar-se grandes afrontas, e tudo sempre em espiral, a crescer enquanto observava o tomar do café, ou o erguer da perna para a suave entrada no autocarro. Deitava-me sempre consciente do touro que se espreguiçava à minha volta, por todos os lados, que me lambia os cotos muito lentamente, com sevícias de meretriz rebuscada, longa, toda empanturrada na sua prolongação, no vício fremente de desavergonhada. E todas as noites comigo! De dia, perseguia-a. Mas de noite ela estava sempre comigo! E eu pus-me louco, até tudo sentir na espinha do meu cérebro, até a confusão começar a degradar-me o raciocínio e a acção. Entrara no labirinto do não-ser. Aniquilava-me. Até que tudo acabou na ponta de uma faca.
Foi só isso que aconteceu. E ali estava eu, sentado na grande poltrona. Ela, jazia mais bela do que nunca, parecendo antes que um sono profundo a tinha alheado de mim. Levantei-me. Movimentei-me com dificuldade, a penumbra não me deixava reorganizar a ideia que tinha sobre o que acontecera ali, e com o mínimo cuidado saí.
Dei uns passos pela rua. A noite já tinha chegado há muito, pelo que não foi difícil ocultar-me dos olhos acusadores das pessoas. Também elas me exigiam razões. Mas ao mesmo tempo tudo me aparecia irrisório, cruelmente banal. Via agora como a realidade chegava até mim de uma maneira enganosa, sem propósitos de veracidade, como a fazer-me sentir culpado por ser eu e não outra pessoa. Olhei em redor, enquanto acariciava a faca ainda bem quente nos bolsos húmidos de sangue, no intuito de encontrar um rumo preciso por entre as pessoas, mas em vão: continuava tão indeciso como antes. Decidi entrar num café. Pedi café. A empregada sorriu-me, possivelmente como costuma sorrir a todos os clientes que entram, mas eu não era um cliente qualquer, e a sua face colou-se imediatamente à face de Ana, toda ali, sem sentido. Arrependi-me de ter entrado; afinal ainda não estava preparado para enfrentar a expressão das pessoas. O aspecto do líquido negro e quente que fumegava à minha frente não me agradava de maneira alguma, parecia-me exageradamente viscoso, e desejei com todas as forças que contivesse um veneno qualquer que me fizesse alhear de tudo, finalmente. Tomei o café. Por sinal até me soube bastante bem.
Quando saí estava possuído da mais pura angústia. No lugar do meu peito havia agora um imenso buraco, não um buraco vazio, mas um extremamente pesado, denso, como se tratasse antes de uma bola de chumbo aquecida ao rubro. As pernas estavam sólidas, petrificadas. Se espetasse uma agulha nos meus músculos decerto não sentiria nada. Era o fim.
Um indivíduo aproximou-se e pediu-me lume. Mal lhe via a cara, toda ela tapada pela mão que empunhava o cigarro nú e expectante. Procurei nos bolsos a caixa dos fósforos. Durante bastante tempo; os bolsos pareciam-me poços sem fundo. Acabei por encontrar a caixa e estendi-a ao homem. Foi a surpresa. Eu estava louco! Na minha mão estava agora a faca, reluzente, com algumas pingas de sangue a caírem por sobre o cigarro. Não acreditando no que via fechei os olhos, à espera da algazarra que se iria dar. Na minha cabeça um martelo fazia estalar os nervos como se estes fossem um sino de igreja. Esperei, sentindo já os braços vigorosos das pessoas que me iriam aprisionar. Mas nada aconteceu. Apenas ouvi um “Muito obrigado!”. Quando abri os olhos já o homem se tinha embrenhado na noite, completamente encoberto por uma névoa de fumo de tabaco.
*
Depois dessa noite, acabei por vê-la umas duas vezes mais, até que partiu para Madrid. Demorei muito tempo a aceitar a ideia de que ela me tinha trocado por outro.
Simplesmente calmo
Pedi o café. Sentei-me à mesa do fundo, no tasco, e esperei que ele chegasse. Era já a segunda vez que repetia esta acção automatizada nas últimas duas horas. Em diferentes sítios, com diferentes desconhecidos ao balcão a falarem enquanto comiam. Só que daquela vez andara mais tempo pelas ruas à procura de um local agradável, percorrera mais vielas e ruas daquela cidade que eu conhecia tão bem e que afinal nada me dizia porque ainda procurava um novo local onde pudesse tomar o meu cafezinho sossegado. Por isto e por aquilo tudo sentia-me ligeiramente cansado.
Depois de uma pastelaria, lógica me parecera a entrada naquela taberna, como encadeamento inevitável da queda de um homem que se sentia sempre calmo demais. Sim. Porque tomava café, várias vezes ao dia, para ver se me enervava com qualquer coisa. Dizem que o café aguça os sentidos, põe os nervos em sobressalto. Vai daí, pedia sempre um café de todas as vezes que saia à rua. Não posso afirmar seguramente quando foi que tomei este hábito como meu, certo é que já lá iam alguns anos. Remontava aos tempos em que ainda tinha vida, mulher em casa, casa onde viver, com televisão e radiofonia e esquentador para a água quente do banho. Mais precisamente tudo terá começado nos últimos tempos dessa minha existência pacífica e integrada. Devo até dizer que nunca fora grande apreciador de café, nunca o seu sabor amargo e torrado me parecera agradável. Mas agora, permanecia horas no café, a olhar para os outros enquanto me tentava enervar.
Sempre fui muito muito calmo. Tentem lembrar-se de alguém conhecido vosso que seja extremamente calmo e imaginem que eu conseguia ser ainda mais calmo do que ele. Esse problema sempre se revelara pernicioso durante a minha vida, na escola e mais tarde no trabalho, tanto que era encarado pelos outros como se de indiferença se tratasse. E isso não, indiferente é que não era. Nunca o fui e nunca o serei, e desafio quem quer que seja para que venha dizer o contrário! Sempre cumpri o meu dever, e posso assegurar, coisa que muito boa gente não pode, que até o cumpri em demasia. A chatice vem de as pessoas nunca saberem o que se passa na cabeça dos outros. Não fosse isso e não me avaliariam tão ao de leve.
Eu nunca gostei que me chamassem lesma. E olhem que não eram apenas estranhos que me ofendiam assim, muitas vezes era a própria família que se portava muito mal para comigo. Devo dizer que a minha família é um bando de canalhas, e olhem que eu os bem conheço, muito melhor que qualquer um de vós, por certo. Uns velhacos, diria eu. Aquele tipo de pessoas cheias de nervoso miudinho, sempre a barafustar por dá cá aquela palha. E como isso me enojasse nunca privei muito com eles. Sou o único macho de um grupo de três irmãos, fruto da união da minha mãe com o acaso, pois nunca chegámos a ver o nosso pai, isto é, supondo ser ele o mesmo para nós os três.
Mas estou-me a afastar do caso. O facto é que não estava ali apenas porque queria tomar café. Havia algo mais. Uma pessoa que eu perseguia há algumas horas e que entrara à minha frente tanto na pastelaria como no café, e das mesmas vezes pedira café, tal como eu. Era um homem de meia idade. Trazia vestido um sobretudo azul, e para proteger o pescoço do frio, um cachecol por sobre os ombros largos. Estatura mediana, cabelos desgrenhados e barba de vários dias. Vi-o pela primeira vez quando deixei o meu prédio, depois do almoço, quando me preparava para iniciar o meu habitual passeio da tarde. Seguia calmamente rua abaixo, com os olhos postos no chão do passeio, entretido com as suas divagações, apenas levantando o olhar para se desviar das pessoas. Foi numa dessas vezes que o seu olhar se cruzou com o meu. Esse instante não durou mais do que um segundo, pois logo ele se apressou a retomar o passo de olhos cabisbaixos, naturalmente. Segui-o. Não sei porquê, nada nele fugia da normalidade, no entanto não demorei muito a tomar a resolução de ir no seu encalço, sem contudo me aproximar demasiado. Nada de grave, tendo em conta que não tinha rigorosamente nada para fazer. Após alguns metros, depois de virar uma esquina, seguiu pela rua que leva ao Estádio de Futebol, que contemplou durante longo tempo. Começava eu a sentir o efeito da falta do café, pois a primeira coisa que normalmente faço mal saio de casa é ir ao cafezinho da frente e pedir um café duplo sem açúcar. Estava já pronto a avançar para a pastelaria que havia do outro lado da rua quando ele, antecipando-se lestamente, apressou o passo e ele mesmo atravessou a rua e muito habilmente, por entre os carros, atingiu o outro lado. Entrou, e dirigindo-se ao balcão pediu qualquer coisa. O empregado trouxe-lhe um café. Entrei também, um bocado surpreendido com a evidência de ambos termos tido o mesmo impulso. Sentei-me na mesa que melhor me permitia observar os gestos do indivíduo, e esperei que o empregado atendesse o meu pedido. Tomei o café, ainda mais lentamente do que ele, o que me permitiu estar ocupado enquanto ele pagava e se preparava para sair, coisa que fez logo a seguir. Deixei o dinheiro encima da mesa e saí para a rua quando ele já quase desaparecia por entre as pessoas que na altura enchiam os passeios. Mas não foi muito difícil alcançá-lo, pois ele caminhava realmente muito lentamente. Como se de calma fossem feitos todos os seus membros. O cachecol caia-lhe pelos ombros como se estivesse colado ao sobretudo, parecendo que sempre estivera ali, fazendo já parte integrante de todo o conjunto que representava o homem. Ele não parecia ter um rumo certo, caminhando ao acaso por entre as pessoas. Contudo, os seus passos eram determinados, e pareceu-me até ver os seus punhos crisparem-se a tempos, principalmente quando alguém mais distraído não o evitava e chocava com ele. Segui-o durante cerca de uma hora, sempre a uma distância razoável que me permitia não ser descoberto. Lentamente fomos deixando a parte mais movimentada da cidade, vendo-se apenas alguns transeuntes que se entretinham a contemplar algumas lojas de vestuário e sapatarias. A dado momento o homem estacou. Do outro lado da rua caminhava uma senhora de idade de mão dada com um rapazinho novo, provavelmente seu neto, que ia ouvindo com impaciência o que a velha senhora lhe dizia. Tratava-se de um raspanete relacionado com a escola. Notei que o meu homem se esforçava por ouvir a conversa. A dada altura o jovem começou a rir e a fazer caretas, o que lhe valeu de imediato um estrondoso estalo nas faces coradas. No preciso momento em que a mão enrugada da velha cortou o ar e atingiu o objectivo, a sua expressão abriu-se num esgar de medo incrível. Quando reparei no homem estava ele encostado ao muro e ria-se. Parecia agradado com o que via. Metendo as mãos nos bolsos entrou de imediato num café que ficava mesmo ali ao lado. Entrei também logo após alguns instantes.
E ali estava eu. Confortávelmente sentado num velho banco de madeira. O homem estava sentado também, a uma distância de três mesas da minha, mesmo emfrente a mim. Tomava lentamente o seu café, erguendo suavemente a chávena à altura dos lábios entreabertos e corados. Na mão esquerda, pendente, segurava um cigarro aceso que ia fumando entre os sucessivos e breves goles. Que raio de maneira de se tomar um café! Um café deve-se tomar de um só fôlego, de rompante, de modo a provocar no estômago aquela sensação de explosão que nos faz sentir ligeiramente leves e pesados ao mesmo tempo. Aquele tipo não, fazia-lo como se fosse a última coisa, a mais preciosa coisa que fizesse na sua vida. Tanta calma era deveras irritante, posso garanti-lo. Quase fiquei com vontade de me levantar e interpelar o sujeito, de forma a abaná-lo ao ponto de lhe revelar algum instinto mais violento. Olhei para o relógio. Já lá iam uns quantos minutos nesta extravagância. Decidi acender um cigarro, e embora já tivesse tomado o mau café há muito, comecei por imitá-lo, levando a chávena por várias vezes aos lábios, fazendo de conta que esta ainda estava cheia. Por momentos pareceu que ambos tinhamos ensaiado a mesma coreografia. Que ridículo! Olhei-o bem nos olhos e esperei uma qualquer reacção. E eis que os seus lábios sujos de café se abrem num ligeiro sorriso de provocação. Ele estava mesmo a gozar comigo! Não era apenas uma questão de hábito, havia sem dúvida na sua maneira de proceder uma qualquer vontade de confrontação! Muito bem, de um pulo levantei-me e dirigi-me para ele, sem antes me ter lembrado de pousar a chávena desnecessária. A sua expressão em nada se alterou enquanto me aproximei. Quando fiquei a im passo dele estaquei e atireil-lhe:
-
-
E ali ficou a olhar para mim. Sentei-me. Estava eu a maquinar a maneira como iria abordar a questão que me incomodava quando ele tem nada mais nada menos do que esta tirada espantosa.
-
Acendi outro cigarro. O tipo ficou sem resposta durante algum tempo. Convenhamos que era uma situação um pouco delicada.
-
-
-
-
Então sempre era verdade que aquele sujeito estivera a divertir-se à minha custa durante todo aquele tempo. Começava a sentir-me mesmo desconfortável. Ali estava mais um a considerar teorias e argumentos sobre a minha existência, sendo que não me conhecia rigorosamente de lado nenhum!
-
Continuava sorridente, todo esticado na cadeira, cada vez mais inchado na sua magreza de réptil ou algo parecido. Pronunciava as palavras com aquela lentidão que se colara tão bem ao seu semblante quase mumificado, teso pela regularidade.
E eu não dizia nada.
-
Pareceu-me extremamente fácil o movimento de elevar a cadeira. Quando ela lhe atingiu o crâneo os olhos dele pararam de se revirar. Fez bastante sangue. Como nos filmes. O tipo era mesmo um fenómeno. Mesmo a cair aquele peso morto pareceu um personagem de um filme em câmara lenta; vi distintamente as três pancadas que a sua cabeça sofreu de encontro ao chão de mosaico da taberna.
Estalido.
-
-
- Sim, sim. Guardas!
SONO
Entrei na morgue no dia mais feliz da minha infância. Os braços esticados, em forma de sono, impeliam-me majestosamente em direcção ao desconhecido por que tanto ansiava, em formas estridentes de loucura suave e pacífica. Encontrava pela primeira vez o verme longínquo e latente que me atormentara a consciência durante tantos anos, e a calma dos meus ossos assombrava a quietude do meu andar seguro e pleno de convicção. Todas as dores nos lençois brancos sujos de mágoa que eu visitara no meio do meu sonho mais suave, desvaneciam-se agora sob o efeito de cada passo inclinado na escada sempre a subir do corredor que antecedia a porta alta e branca, de ferro lacado, pintalgada aqui e ali de manchas de ferrugem mais velhas do que eu. Os dedos hirtos e suplicantes, sonhando vozes de torturas carnais de odores intensos, faziam o prolongamento físico da minha pura e intensa vontade de me tornar crescente em direcção ao mais majestoso dos momentos por mim sonhados nas noites do meu sono quebrado. Eu via as lógicas capitais dos censos de perigo amortalhado, aqueles que eu criava e matava enquanto a língua atingia o ponto mais saliente da parede que normalmente se erguia à minha frente. Via os monstros alados que penoitavam simplesmente no encantamento mais subtil de uma noite vibrantemente engrandecida ao extremo da minha dor. Com toda a volúpia das mulheres que gritavam e chamavam pelo meu nome a dançarem de encontro ao meu corpo que se ia transformando em libélula gigante do tamanho de doze igrejas. Do sino da torre mais alta era executada uma balalaica de tempos imemoriais que me feria os ouvidos mas não o nariz, que é a parte mais preciosa do meu corpo celeste; em ondas azuis e vermelhas e verdes de conspiração que teimavam em desaparecer e que eu criava por entre os meus dedos para me divertir. Via o corpos meio antes de serem aplainados pelo martelo de oiro fundido que surgia do ar numa elipse de contornos fantásticos e cruéis. E só a memória ficava plena de convicção e fúria, pois no assombro do sentir residia o sonho perdido de anos.
Assombrei-me de encontro à parede nua e fria. Os ruídos longínquos que chegavam até mim em ondas de som violento e esmagador diziam-me que me aventurara longe demais. O meu sexo endiabrado empolgava-se em demasia. Como se todas as mulheres de todos os mundos possíveis se consolassem de encontro aos meus membros inferiores e os fizessem prostrar no meio do maior alarido. Os olhos, bem enfiados no pedaço de luz que se esgueirava pela abertura semi redonda que à minha frente se erguia, perscrutavam e ansiavam pelo mais pequeno movimento, aquele que retinisse na base da nuca as vagas rimbombantes do meu adeus embriagado de choro. Não haviam duvidas, era tempo de entrar.
Senti um arrepio maravilhoso quando a palma da mão encontrou o frio da maçaneta da cor do oiro. Não foi difícil rodar um pouco o pulso. De olhos fechados, antevendo o sublime momento que se seguiria, ergui uma perna e entrei.
A escuridão foi a primeira opressão. O primeiro grito abafado pelo ranger de ossos, pelo primeiro rastejar de pés no chão poeirento, a inicial constatação do meu absurdo. Ladeei o que pareceia uma grande mesa, com a qual eu contaria dissimular o meu tresloucamento de choro, e ali me possuiria como besta anónima e sem sentido. Senti-lhe a calma precisa do ferro há muito forjado, ténue na escuridão do pranto que me assaltava as pálpebras, duro na sua projecção do inquebrável, e amei-lhe a existência suave de estética. A minha assembleia dir-se-ia pronta. O canibal eu, de sonho múltiplo no desvario, que baixava as argolas do tempo para poder deixar passar o acaso, ali me tomaria como centro do meu universo; ali tomaria as minhas entranhas nos braços e as adoraria pelo sempre não. No meio dos passos o meu peito era total explosão. Tomara-se de proporções gigantescas, de material bruto, arrancado das pedreiras mais malditas. A vertigem das ondas do meu semblante progredia pelo meu corpo livremente, tomando-o ao de leve, sentindo-lhe a anti-gravidade, subindo-o para lá do alto, e na queda a acelerar o destravamento.Foi na escuridão que peguei nas facas. Tudo tinha que ser rápido. A câmara lenta será o vosso julgamento. A lentidão das facas a penetrarem na carne.
A lâmina afundou-se na carne como um verme languescente, pútrido de paixão, a contorcer-se na luxúria da Penetração suprema, a fazer ranger os tendões e os pedaços que dele se libertam, pequenas faúlhas envoltas em sérum viscoso, meio sangue de alquimia Bestial, que se espalha pelo resto do ventre, pelo meio do ventre até atingir as pontas, e a lâmina afundou-se na carne, enquanto o grito não veio, sendo ainda apenas inevitável. A moléstia das excrecências carnosas, no turvamento da hemorragia, progridiu pelo tempo anterior, realizando metamorfoses de asfixia a acerta-me no cérebro com a precisão de um piolho. Cravado no âmago da minha hiper-sensação. A lâmina afasta-se do canto do ventre e rasga o torax em chamas. Revira-se sobre si própria, aninhada no caixão quente da carne. Um pouco para a esquerda. Um pouco mais. Agora um pouco para cima. Volta sobre si. Demónio entalado na puta. Como um cão tomado pelo nervo. E enterrou-se mais.
A outra faca atinge-me o olho.
Airf ‘Auga
Metalurgia - Juca Pimentel
Bronssi
THX – Sofia Bravo
Suicidiária e outros poemas – Bórgia Ginz
Venus of Kazabäika
Contos Normais – Bórgia Ginz
Capa e THX Series - Sofia Bravo
pG
Dating You Sex on Saturday - Dating You Sex on Saturday - Full Of Void Sex on Saturday ACT9 RTP Juca Pimentel Ilaialy Bunder Bórgia Ginz Kum a música Industrial e os seus paradigmas sociais. O experimental extravasa para o sentido do imediato. Sex on Saturday. Música Imediata.Sex on Saturday Full of Void Dating You